Veja como foi o dia de terror em Brumadinho com relatos das testemunhas

O Globo

Para quem mora em Brumadinho (MG), na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a última sexta-feira do mês de janeiro trouxe uma tragédia que pode superar em número de vítimas o desastre de Mariana , na região central do estado, há três anos.

Testemunhas descrevem o momento do rompimento da Barragem 01, da Mina do Feijão , falam do medo de não rever familiares e conhecidos, e dizem que as sirenes de alerta não tocaram no momento da ruptura da barragem. Até a noite desta sexta-feira, o governo de Minas havia confirmado o resgate de sete corpos e cerca de 150 desaparecidos em Brumadinho .

— Desceu arrastando oficinas, escritórios, o refeitório tudo que estava na frente foi embora — disse ele, que deixou para trás 14 amigos e a mãe, motorista da mina.

Maicon contou como escapou para a rota de fuga — estabelecida pela Vale e ensinada em treinamentos — com outros cerca de 40 funcionários.

— Depois que a barragem desceu, eu e mais dois voltamos para ajudar no resgate— disse ele.

Além de auxiliar no salvamento de duas mulheres, eles também retiraram dos escombros o corpo de um motorista da empresa.

O bombeiro civil D. resume como um “cenário de completa destruição” o que encontrou ao chegar no local. Ele, que preferiu não se identificar, diz que foi uma das primeiras pessoas a acessar a área da mineradora.

— Não ouvi a sirene tocar. Logo que cheguei, sabia que havia muitos mortos. Conseguia ver partes dos corpos. Havia poucas pessoas no local e logo o resgate começou a chegar. Era um completo caos. Desde o início eu sabia que sobreviventes seriam poucos — relatou D.

A falha no equipamento de segurança também foi relatada por Maicon Vitor, que ouviu o barulho da tragédia, mas garante o silêncio das sirenes. Mesmo atônito com a situação, ele permaneceu no local para auxiliar nas buscas.

— Todo mundo que não foi soterrado permaneceu aqui. Estamos esperando informações —disse ele.

Clima na cidade

Coordenadora executiva da Defesa Civil de Brumadinho, Gislene Zuza confirmou o silêncio das sirenes.

— Elas foram instaladas no início de dezembro, todos os testes foram feitos e os simulados tiveram 95% de aproveitamento — afirmou Gislene

Enquanto familiares e funcionários permaneceram durante todo o dia no local do acidente, na cidade as pessoas estavam todas nas ruas. Em uma das pontes por onde passa o córrego do Feijão, dezenas de pessoas aguardavam a chegada da lama. A pacata Brumadinho deu lugar a viaturas de polícia, carros de bombeiros e ambulâncias.

— O rio estava turvo, baixou mais de um metro e meio e o cheiro era algo que nunca vimos antes por aqui — disse o mecânico Adilson Fernandes.

Para quem mora na região, além da incerteza, do medo de não rever familiares e conhecidos, a tragédia também já mostra rastros de destruição ambiental. Produtores rurais que vivem próximo ao córrego já relatam que os peixes estão morrendo.

— No quintal da minha casa, dava dó de ver os peixes. Eram grandes, fortes e todos mortos. E se a lama chegar até a minha terra, perco todo o meu trabalho — lamentou o produtor rural Geraldo de Oliveira.

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