Turistas brasileiros são barrados no México apesar de estarem com todos os documentos

Por Marina Gonçalves de O Globo

RIO - O destino era Cancún, no México. Thais Leôncio, 32 anos, e Júlio César de Paula, 38, haviam reservado um hotel cinco estrelas e fechado passeios por praias da região, férias muito bem planejadas. Mas a viagem romântica acabou se transformando em um pesadelo, que começou no controle migratório mexicano.

Ao chegarem na Imigração , a enfermeira e o tecnólogo de telecomunicações tiveram seus passaportes apreendidos e foram encaminhados a uma sala de entrevistas, mesmo explicando que tinham documentos que comprovavam serem turistas.

O consulado geral do Brasil no México confirma que tem recebido um maior número de denúncias de cidadãos brasileiros de maus-tratos por parte das autoridades migratórias mexicanas. Ontem, o país anunciou ter conseguido reduzir em 58,7% o fluxo de migrantes para os Estados Unidos desde junho, uma clara tentativa de afastar a ameaça do governo do presidente americano Donald Trump de impor sanções tarifárias a produtos mexicanos como retaliação caso o país não o ajudasse a conter a imigração ilegal.

O Itamaraty não tem números que possam comprovar um possível aumento das inadmissões (quando a pessoa é deportada antes de ser admitida em um país), já que os números são fornecidos pelas autoridades mexicanas. A área consular do ministério, no entanto, reconheceu, em nota, que tem ciência “de que o número de ocorrências é expressivo”: “Com base nos relatos de viajantes inadmitidos, parece ser frequente a sensação de que a decisão foi tomada pelas autoridades mexicanas de forma arbitrária, ou, no mínimo, baseada em critérios não suficientemente claros”.

— A postura estrita dos órgãos de controle migratório mexicano insere-se na lógica regional de coordenação com as autoridades americanas e canadenses e visa, em geral, a combater fluxos migratórios de latino-americanos (brasileiros, inclusive) aos EUA — disse ao GLOBO a embaixadora Wanja Campos da Nóbrega, cônsul geral do Brasil no México. — De todo modo, todos os indivíduos cuja entrada tenha sido denegada no México devem ser tratados de maneira digna e com respeito a seus direitos humanos e garantias fundamentais. Nesse sentido, este consulado tem realizado diversas gestões junto ao governo mexicano com o objetivo de encaminhar as denúncias de maus-tratos recebidas e solicitar esclarecimentos.

Sem necessidade de visto

Desde maio de 2013, cidadãos brasileiros que viajam ao México a turismo ou negócios, por até 180 dias, não precisam de visto. Mas a própria página do consulado brasileiro no país alerta que os controles migratórios tendem a ser rigorosos, diferentemente das “facilidades de que os cidadãos brasileiros desfrutam na América do Sul”. Por isso, detalha, é necessário contar com documentos que comprovem a condição de turista, como bilhete aéreo de ida e volta; cópia de voucher do hotel ou carta de um cidadão mexicano que deverá hospedá-lo; além de cartão de crédito ou dinheiro em espécie.

O casal, que mora no Rio, estava atento e tinha levado cópia de todos os documentos solicitados. Mesmo assim, foi barrado na imigração. Após algumas horas de interrogatório, no qual mal puderam falar, Thaís e Júlio foram levados a um pequeno centro de detenção, onde estavam alguns suspeitos de terem cometido crimes. Ali, tiveram que entregar também os celulares.

— Não nos deixaram telefonar para a embaixada brasileira. Não diziam o que faltava nos nossos documentos, apesar de termos passagens de volta e hotel reservado, notas de todos os passeios contratados — conta Thais, que chegou a passar mal, desmaiou, e teve de ser socorrida por outra pessoa detida.

A retenção de celulares e passaportes é parte de protocolo internacional que se aplica a viajantes não admitidos, mas a cônsul classificou como “inadmissível” a impossibilidade de contato com o consulado do Brasil.

— Ainda sobre as condições de alojamento dos viajantes brasileiros que aguardam seu retorno ao Brasil, posso confirmar, infelizmente, que o México carece de instalações condignas, tanto em seus aeroportos como em suas estações migratórias (espécies de albergues em que viajantes são retidos por duração maior que um ou dois dias). Tive a oportunidade de visitar várias dessas instalações e apresentei reclamações e protestos formais às mais diversas instâncias governamentais mexicanas — afirma a embaixadora.

Na sala de detenção, o casal encontrou outro brasileiro: Graziany Marques, 34 anos, advogado e servidor público de Brasília, que seria padrinho de um casamento em Cancún. Assim como Thais e Júlio, ele tinha cópias de documentos que comprovavam sua viagem como turista. Ele ficaria apenas cinco dias no país.

— Quando nos enviaram para a sala de detenções, expliquei que havia sérios indícios de violação de direitos humanos, me apresentei como advogado e servidor público. Nesse momento, acho que perceberam a gravidade do que acontecia e nos levaram de volta para a sala de entrevistas — disse Graziany.

Em busca de ressarcimento

Após horas em condições insalubres, os três foram enviados de volta ao Brasil, passando pelo Panamá, onde ficaram mais de 12 horas esperando pela conexão, que só sairia no dia seguinte. Da companhia aérea, receberam apenas US$ 10 por pessoa para fazer uma refeição.

— Já no Brasil, fomos ao consulado do México. A cônsul ficou de boca aberta, horrorizada com nosso relato. Fiz um relatório mas não tive retorno até agora — conta Thaís. — Eles falam em inadmissão, mas eu me senti como deportada. Fui tratada como bicho.

A embaixada do México não respondeu aos questionamentos do GLOBO sobre os casos até o fechamento desta edição.

Agora, os três esperam pelo menos algum ressarcimento financeiro. A CVC, empresa contratada pelo casal, informou que ocorreram mais três casos de clientes deportados pela Imigração do México desde junho deste ano. O México, em especial, representa cerca de 5% do volume de passageiros anual da empresa, sendo Cancún o destino mais buscado. “Em casos de deportação, a CVC costuma auxiliar seus clientes na intermediação com o hotel, para que o mesmo avalie a possibilidade de efetuar reembolso da diária, que, no entanto depende de cada hotel.”

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da Redação

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