Convidado por Aras diz que cargo na PGR tem natureza ‘política’

Por Vinicius Sassine e Carolina Brígido de O Globo

BRASÍLIA — Convidado por Augusto Aras para integrar sua equipe na Procuradoria-Geral da República (PGR), o procurador Ailton Benedito disse ao GLOBO que o cargo tem natureza “política e jurídica” e que é normal uma aproximação por “afinidade de valores”, um dos critérios usados pelo presidente Jair Bolsonaro para a escolha. Para ser o novo PGR, o subprocurador depende de aprovação do Senado. Ontem, o líder do MDB na Casa, Eduardo Braga (MDB-AM), foi escolhido relator da indicação. Aras ganhou a preferência de Bolsonaro sem disputar a lista tríplice, organizada pela categoria e ignorada por um presidente pela primeira vez desde 2003.

Bolsonaro e Aras vêm sendo criticados pelo descarte da lista e pela valorização do critério de afinidade, o que colocaria em risco a autonomia constitucional do Ministério Público, na visão dos críticos. Ailton chefia a Procuradoria da República em Goiás, tem posições conservadoras e é defensor das ideias de Bolsonaro, especialmente das pautas de costumes e segurança. No Twitter, critica “comunistas” e “ideologia de gênero”. Há pouco mais de um mês, o próprio Ministério Público Federal, por meio do Conselho Superior, barrou a indicação de Ailton à Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, contrariando o Palácio do Planalto.

— É normal a busca por afinidade de valores. O cargo de procurador-geral da República é de natureza política e jurídica. Todos nós buscamos nos aproximar de alguém que tem afinidade de valores — disse o procurador.

Ailton afirmou ainda que não sabe se houve um comprometimento por cargos na PGR nas conversas entre Bolsonaro e Aras, antes da indicação. O procurador deve se encontrar com Aras nesta semana, para discutirem qual será sua função no gabinete.

Aras também formalizou o convite para que a procuradora da República Thaméa Danelon integre sua equipe. Neste caso, a função já foi oferecida: coordenadora da Lava-Jato que cuida dos inquéritos e ações no âmbito do Supremo e do Superior Tribunal de Justiça. Ela decidirá se aceita depois de conversa com Aras nesta semana. Thameá também tem perfil conservador.

Relator definido

No Senado, Eduardo Braga foi anunciado relator da indicação de Aras pela presidente da Comissão de Constituição e Justiça, Simone Tebet (MDB-MS). Ele é investigado na Lava-Jato em inquérito no STF. Se for aprovado no Senado, caberá a Aras decidir se apresenta ou não denúncia contra o parlamentar, acusado de ter recebido R$ 6,08 milhões da JBS de forma ilegal na campanha de 2014, assim como outros integrantes do MDB.

Aras manteve ontem a agenda de encontros com senadores. No beija-mão, jantou com a bancada do PP, na terça-feira, na casa do senador Ciro Nogueira (PI), em Brasília, conforme mostrou a colunista Bela Megale. Ciro também é alvo da Lava-Jato. Em conversa com senadores, segundo o blog da jornalista Andréia Sadi, Aras defendeu uma Lava-Jato “sem excessos”, ironizando procuradores jovens que se destacaram, chamados por ele de “nutella”.

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da Redação

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