Najila achava que bastava ser mulher para ganhar de Neymar, por Ruth de Aquino

Por Ruth de Aquino colunista de O Globo

Lamento escrever esse título. São tantas as mulheres abusadas, violentadas, estupradas e mortas por homens conhecidos e desconhecidos que é duro reconhecer que ela pode ser uma aproveitadora. É duro admitir que inocentes de um crime podem acabar sendo condenados e presos porque a palavra da mulher vale mais que a do homem. Ela costuma ser a vítima. O homem costuma ser o algoz.

Neste jogo jogado entre Najila e Neymar, não parece haver santos, não existe craque da rodada.

A questão é: houve estupro? A polícia federal em São Paulo concluiu que não. E acusou Najila de extorsão, fraude processual e denúncia caluniosa. Pode não ser o fim do enredo.

Teremos certeza algum dia sobre o que aconteceu naquele quarto em Paris onde Najila Trindade disse que, em vez do príncipe dos sonhos, encontrou um craque estrela e alcoolizado que a forçou a um sexo violento, com palmadas indesejadas? Seguiu-se filminho dela e dele, acusação de estupro, revelação na internet, por Neymar, de fotos íntimas de Najila, “arrombamento” da casa dela, “sumiço” do laptop dela com “provas”, um desfile de advogados que iam desistindo de defendê-la, mulheres transformando Najila em ícone feminista e Neymar em estuprador. Uma novela.

Escrevi dois textos sobre o episódio. Um com a impressão minha, subjetiva, de que Najila prestava um desserviço a tantas mulheres que efetivamente sofrem violência todos os dias. E o outro em que eu discutia se mulher pode ir a Paris transar com tudo pago. E sem levar camisinha para a cama. Eu não absolvia Neymar – nem poderia, sem ter acesso a todos os depoimentos e evidências. Mas também achava errado demonizar o jogador rico famoso e santificar a modelo pobre desconhecida. Só porque um é homem e a outra é mulher?

Polícia de SP indiciou a modelo Najila por extorsão, fraude processual e denúncia caluniosa

Há anos, contei uma história em uma de minhas colunas para a revista Época. Intitulava-se “A palavra e o sexo”. Reproduzo aqui no blog, com algumas atualizações.

Era uma vez Emir. Imigrante marroquino, em Paris, apaixonou-se por uma belga. Ela foi morar no apartamento que ele alugava. Emir é garçom e músico. Brigas azedaram o amor e o casal se separou. Um dia, ela telefonou. Insistiu num encontro para discutir a relação. Foi para a casa dele. Beberam. Fizeram sexo. Na manhã seguinte, cedo, ela foi à delegacia e o acusou de estupro. Disse que Emir a forçou a fazer o que não queria. Cilada?

Não havia marca de violência. Era a palavra do homem contra a da mulher. Ele jurava ser inocente. Afirmou que o sexo tinha sido consentido. Emir contratou advogado, foi julgado e condenado a três anos de prisão. O julgamento estarreceu seus patrões, franceses. Amigos de Emir acharam a condenação sexista e racista. Ele ficou incomunicável um bom tempo.

Reencontrei Emir, servindo mesas novamente em Paris. Ficou um ano na prisão. Tinha uma companhia inseparável: a tornozeleira eletrônica. Flutuava entre dois mundos – o de seu apartamento alugado, único bem que conservou com a ajuda alheia, e o restaurante. Se por acaso decidia, dentro do metrô, mudar a conexão para o mesmo destino, recebia imediatamente um telefonema e era convocado pela Justiça a se explicar naquele exato momento. Se escolhia outra rua em seu trajeto, a convocação telefônica se repetia.

Emir é grato ao juiz pela liberdade condicional e vigiada, que ele compara a uma ressurreição. Não quer processar ninguém. Só deseja provar que nunca foi uma ameaça às mulheres. Tenta reconstruir suas economias, porque faliu. Ouviu dizer que a ex-companheira desapareceu com um amigo dele, e se mudou para a Itália com a indenização que foi condenado a pagar. Emir sempre foi gentil, atencioso, educado. Hoje, está mais silencioso. A mágoa e o temor nos deixam assim. Cautelosos.

Pelo sotaque, os traços do rosto e a cor da pele, Emir passa por um francês. É imigrante mas o que mais parece ter pesado no desfecho de seu julgamento foi o fato de ser homem. E a acusadora, uma mulher. A lei hoje, na maioria dos países, é rigorosa em casos de suspeita de abuso sexual. A palavra do homem vale bem menos que a palavra da mulher.

Há histórias tenebrosas de abuso e estupro contra meninas, moças, mulheres, filhas, sobrinhas, pacientes. A partir daí, podemos concluir que o homem, pela força física e pelo poder, tende a estuprar? Antes de condenar um homem com base só na palavra, não deveríamos ter certeza para garantir justiça? Ou podemos nos permitir algumas injustiças contra os homens para equilibrar o jogo?

As fronteiras entre o sexo consentido e o abuso costumam ser muito claras. Às vezes, não são. Penetramos então no terreno obscuro da subjetividade. O efeito do álcool ou da droga torna a mulher vítima potencial do homem? A mulher adulta precisa saber quem ela leva para a cama ou na cama de quem ela vai parar. E com que fim. Normalmente não é para conversar ou rezar, mas ela tem o direito de mudar de opinião. Ele também, embora costume não achar que pode desistir em cima da hora.

Se a mulher quiser perder o controle sobre si mesma, ficando bêbada pra lá de Marrakech, dificilmente controlará os atos do outro. Homens bêbados também são levados para a cama por mulheres levemente mais sóbrias e, no dia seguinte, não se lembram de nada. E nem por isso a mulher é acusada de estupro. Ouvi de amigas que um homem bêbado não consegue transar contra a vontade. Mas conheço casos assim. O homem se arrepende quando percebe com quem está. Esqueceu tudo. E pensa: eu só posso ter bebido demais.

Machismo meu? Ou vontade de não infantilizar as mulheres e não demonizar os homens? Sempre existirão os ignorantes ou machões doentios ou criminosos que acham que uma mulher atraente e sensual, de sainha curta ou decote, pede para ser abusada. Seja ela desconhecida ou sua própria mulher ou uma ex.

Contra os crimes de assédio, abuso e estupro, nós, pessoas de bem, mulheres e homens, nos insurgimos. Ponto. Mulheres são muito mais vítimas. Ponto. Mas deve ser possível supor que há casos em que uma mulher minta para tirar algum proveito de um homem. Ou dinheiro, ou a guarda dos filhos, ou vantagens quaisquer. Mulheres têm pais. Filhos. Irmãos. Maridos. Namorados. São sempre elas as certas e eles são sempre os errados? Aí também não, né.

A meu ver, Emir sempre foi inocente. Talvez porque eu o conhecesse bem, dono de um caráter irretocável, doce. Mas, de que adiantava minha opinião? O caso dele nunca foi para a mídia. Era um desconhecido. O de Neymar continuará a ser notícia em Paris, aqui e em todo lugar. Com ou sem reviravolta, imagina-se hoje que tanto Neymar quanto Najila, se pudessem, apagariam totalmente o triste imbroglio de suas biografias.

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da Redação

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