‘Padrinho’ de Aras, ex-deputado atua como emissário informal de Bolsonaro

Por Gustavo Maia de O Globo

BRASÍLIA — Ser amigo do presidente Jair Bolsonaro há quase quatro décadas tem aberto portas nos palácios do Planalto e da Alvorada para o ex-deputado federal Alberto Fraga (DEM-DF). E também no Congresso, onde cumpriu mandato até janeiro desse ano, após ser derrotado na disputa pelo governo do Distrito Federal.

O ex-parlamentar passou a atuar como emissário informal de Bolsonaro em missões no Legislativo. Fraga foi ainda o “padrinho” da indicação de Augusto Aras para a Procuradoria-Geral da República. Anteontem, dia do anúncio, o ex-deputado esteve com o presidente duas vezes, em ambos os palácios.

Condenado duas vezes em primeira instância desde setembro do ano passado pela Justiça do Distrito Federal, acusado de cobrar propina no setor de transportes quando era secretário do governo de José Roberto Arruda, em 2008, ele ficou de fora da equipe oficial de Bolsonaro. Afirma a interlocutores que não ocupar cargo foi uma opção para não expor Bolsonaro a constrangimentos. Mas não esconde que, se conseguir se livrar dos processos, espera ter um papel maior na gestão do amigo.

Hoje presidente do diretório do DEM no Distrito Federal, Fraga ainda circula da Câmara pelo plenário com desenvoltura. Cumprimenta ex-colegas e se apresenta a novos parlamentares. Na última terça, a reportagem presenciou o momento em que entregava o próprio cartão, com o número do seu celular, ao deputado federal Sargento Fahur (PSD-PR), policial militar reformado assim como ele. Na conversa, se colocou à disposição para falar sobre projetos. Abordado pela reportagem, Fraga preferiu não conceder entrevista.

O amigo do presidente mantém grande proximidade com Bolsonaro e a agenda oficial registra quatro visitas de Fraga ao Alvorada em sábados ou domingos. No sábado passado, ele dirigiu o próprio carro para levar Aras a um encontro com o presidente, reunião não registrada na agenda. No Planalto, ele esteve em pelo menos outras cinco audiências com Bolsonaro.

Os dois amigos se conheceram cursando educação física juntos na Escola de Educação Física do Exército (EsEFEx), no Rio de Janeiro, em 1981. Desde então, trata o presidente pelo seu apelido nas Forças Armadas, "cavalão". Voltaram a conviver com mais intensidade no começo dos anos 1990, quando Bolsonaro foi eleito para a Câmara dos Deputados -- Fraga estrearia na Casa em 1999. A dupla costumava sentar lado a lado no plenário e acompanhar os respectivos votos. Na transição do governo no fim do ano passado, o então deputado do DEM "batia ponto" no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em Brasília.

Na terça passada, no fundo do plenário da Câmara, Fraga conversava animadamente com os deputados Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) quando ouviu um elogio do ex-colega e amigo --"a gente gosta de você pra caramba". O ex-deputado emendou com a pergunta sobre o que ele vai fazer no projeto do governo Bolsonaro que amplia o porte de armas no Brasil, que deve ser votado nos próximos dias na Câmara. Integrante da bancada evangélica, contrária à proposição, Cavalcante o tranquilizou prometendo ficar “quietinho”.

Ao GLOBO, Sóstenes Cavalvante disse que Fraga é um grande amigo e declarou que o ex-deputado nunca articulou nada com ele em nome do governo. Questionado sobre a indicação de Aras, o deputado do Rio avaliou que o fato de Fraga ter se “autopenitenciado” em não ocupar nenhum cargo do governo pode ter pesado na decisão, para que Bolsonaro atendesse um amigo.

Na mesma passagem pela Câmara nesta semana, Fraga brincou com a deputada Norma Ayub (DEM-ES). Ofereceu, aos risos, uma arma pequena que caberia em sua bolsa, medindo o tamanho com os dedos indicadores. Também sorrindo, a parlamentar disse que o presente não seria necessário.

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da Redação

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