Bradesco vai ficar com mais de 50% de torres da Odebrecht no Porto

Por Glauce Cavalcanti de O Globo

RIO - A Odebrecht Realizações Imobiliárias (OR), que ficou fora do processo de recuperação judicial da Odebrecht S.A . (ODB), está prestes a dar mais um passo rumo à redução de sua dívida. A empresa costura a venda para o Bradesco de 50% do Porto Atlântico , projeto comercial no Porto do Rio . A transação, equivalente a R$ 250 milhões, vai cobrir parte da dívida que a OR tem com o banco, que financiou a construção do empreendimento concluído em meados de 2016, disse uma fonte próxima às negociações.

O Porto Atlântico é formado por uma torre comercial com 330 salas, uma torre corporativa com 54 unidades (grandes pavimentos para serem ocupados por empresas), 50 lojas e dois hotéis, atualmente operados com as marcas Ibis e Novotel, da companhia francesa Accor, somando 450 quartos.

Na entrega da obra, o conjunto somava R$ 270 milhões em valor de vendas. Integraria um complexo ainda maior da OR no Porto, que acabou reduzido após a crise que se abateu sobre a holding Odebrecht, envolvida na Operação Lava-Jato. O grupo pediu recuperação judicial em junho.

— É uma operação simples, em vias de fechamento. O Bradesco financiou a construção do Porto Atlântico. Então, parte do estoque que ficou do projeto está sendo usada para quitar a dívida com o banco — definiu essa fonte de mercado.

Na prática, o Bradesco vai ficar com mais da metade do Porto Atlântico, o que inclui 70% da torre corporativa, que tem uma área total de 30 mil metros quadrados, até hoje não ocupada. A operação dos hotéis não será afetada pela transação.

Negociação mais ágil

No mercado imobiliário carioca, a transação, que ainda não foi divulgada oficialmente, já é tida como um alento para a região portuária, cuja revitalização imobiliária ainda não decolou.

- Toda solução encontrada por empresas e negociada com bancos e que permita a retomada de atividades é uma boa notícia — avalia Claudio Hermolin, presidente da Ademi-RJ, que reúne as construtoras no Rio.

A taxa de vacância no mercado de escritórios do Rio chegou a 37,8% no segundo trimestre do ano, à frente dos 36,5% registrados de janeiro a março. No período, o mais alto percentual de imóveis desocupados na cidade foi registrado no Porto Maravilha: 60%, segundo dados da consultoria Newmark Grubb. No entanto, já há melhora em relação a 2018, quando o índice chegou a atingir 75,1% em junho.

A OR tem concentrado esforços na redução de suas dívidas, cujo montante não é público. A empresa conseguiu chegar a um acordo final com a carioca Carvalho Hosken, com quem ergueu o empreendimento Ilha Pura, na Zona Oeste, usado como a Vila dos Atletas na Olimpíada de 2016. Há acertos em outros grandes projetos, como no condomínio de luxo Reserva do Paiva, em Cabo de Santo Agostinho (PE).

- Empresas desse setor em dificuldades têm em seus ativos, como terrenos, estoque de unidades e projetos, um caminho para quitar dívidas. No caso da OR, com a Odebrecht em recuperação judicial, os credores aceleram essas negociações para garantirem seus pagamentos. Isso ajuda a ODB — avaliou um empresário do setor que preferiu não se identificar.

Só metade saiu do papel

O complexo original planejado pela OR para o Porto Atlântico bateria R$ 1,7 bilhão em valor de vendas. O conjunto negociado agora com o Bradesco equivale à metade desse desenho inicial. Da outra parte, só está de pé o NovoCais, torre comercial do Porto onde estão instaladas empresas do grupo Odebrecht.

Procurada pelo GLOBO, a OR não quis comentar. O Bradesco não retornou.

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da Redação

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