Análise: os riscos para Bolsonaro no veto à lei do abuso de autoridade e na escolha do novo PGR

Por Miguel Caballero de O Globo

RIO — Reconhecidas por Jair Bolsonaro e por auxiliares como duas das decisões mais difíceis que serão tomadas até aqui, os vetos de artigos da lei de abuso de autoridade e a escolha do novo procurador-geral da República se impõem ao presidente num momento delicado.

A pesquisa Datafolha de domingo mostrou queda de popularidade de Bolsonaro. Ainda buscando uma saída para a crise das queimadas na Amazônia, o presidente tem de decidir questões que opõem o discurso de combate intolerante à corrupção a outros interesses do governo — “entre a cruz e a espada”, nas palavras da líder do governo Joice Hasselmann (PSL-SP).

A mesma pesquisa indicou que, em apenas duas de 18 áreas avaliadas, Bolsonaro obteve números melhores que seus antecessores desde Fernando Henrique Cardoso: além da segurança, o combate à corrupção é o setor onde a imagem do presidente ainda é positiva (ótima ou boa para 34%).

É um eleitorado que certamente adere ao discurso de procuradores, juízes e do ministro Sergio Moro, entre outros, de que a lei de abuso, como aprovada, compromete a luta contra crimes de colarinho branco e é uma reação dos políticos à Lava-Jato.

Por outro lado, um veto extenso à lei pode reabrir desgaste com o Congresso. No Senado, se a aprovação da reforma da Previdência não parece ameaçada, outras votações são mais imprevisíveis. A indicação do terceiro filho Eduardo Bolsonaro para a Embaixada dos Estados Unidos vai exigir boa vontade dos congressistas com o governo.

Uma canetada que descaracterize muito a lei de abuso de autoridade embute também outro risco: a derrubada dos vetos presidenciais pelos parlamentares, que seria um sinal ruim ainda no início de mandato.

A escolha do próximo PGR tem riscos bem mais perigosos para Bolsonaro. O presidente tem dito que seus critérios para a indicação são essencialmente ideológicos, citando questões ambientais como exemplo. É do procurador-geral, porém, a atribuição de investigar e denunciar à Justiça autoridades como o próprio presidente — o histórico recente do cargo mostra um antecessor denunciado, outra destituída e um terceiro preso.

Ao falar na terça-feira sobre a PGR, Bolsonaro comparou o cargo à importância da rainha (dama) num jogo de xadrez. A rainha não é apenas a mais importante depois do rei. Por ter a maior capacidade de movimentação no tabuleiro, é a mais potente arma de ataque — quem normalmente anuncia o xeque ou encurrala o rei adversário.

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da Redação

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