Congressistas dos EUA ameaçam impedir acordo de comércio com Brasil por incêndios na Amazônia

Por Paola De Orte, especial para O Globo de O Globo

WASHINGTON — Congressistas do Partido Democrata estão ameaçando os planos do governo Donald Trump de se aproximar do Brasil por meio de um acordo de livre comércio e de outras iniciativas caso o governo brasileiro não consiga resolver o problema dos incêndios na Amazônia . Por enquanto, nenhuma medida concreta foi tomada no Congresso por causa do recesso legislativo, mas os parlamentares prometem apresentar leis assim que voltarem, no dia 9 de setembro.

A Embaixada do Brasil em Washington respondeu a alguns dos congressistas por cartas argumentando que os incêndios não estão fora do controle e que o governo está atuando contra o desmatamento.

Um dos senadores que propõe atrapalhar a aproximação entre Trump e o presidente Jair Bolsonaro é o democrata Chris Murphy, do estado de Connecticut. Em uma entrevista a um podcast da rede ABC News na quarta-feira, Murphy disse que os Estados Unidos deveriam deixar claro que a natureza do relacionamento nas áreas da economia e de segurança entre Estados Unidos e Brasil terá que mudar se o país não levar a sério a questão da Amazônia e não parar de pôr a culpa dos incêndios em grupos ambientalistas.

— Não há acordo de comércio com o Brasil se não houver progresso sério em relação aos incêndios e aos ataques mais amplos à Amazônia que têm vindo do governo brasileiro.

O senador lembrou que o país coopera com o Brasil em diversos programas, mas que deve repensar se quer continuar nesse tipo de negócio caso o desmatamento continue.

— Eu acho que um dos mais importantes instrumentos de poder que nós temos é este acordo de livre comércio. Bolsonaro acha que o acordo de comércio com a Europa pode estar numa situação difícil, e ele está falando para as pessoas publica e privadamente que não está realmente preocupado com isso, porque vai conseguir um acordo de comércio dos Estados Unidos. Bem, vamos deixar claro que isso não vai acontecer se eles não levarem a sério o desmatamento. E você não vai conseguir um acordo de comércio sem os democratas.

Ato para banir produtos brasileiros

O Senado americano é controlado pelos republicanos, do partido de Trump. Porém, em novembro do ano passado, Trump perdeu a maioria na Câmara. Para iniciar negociações comerciais, o governo americano deve conseguir um “fast track” de ambas as casas do Congresso, que dá autoridade para que o presidente prossiga.

O deputado democrata Peter DeFazio, do Oregon, anunciou na terça que vai propor uma nova lei chamada Ato para a Amazônia, para pressionar o Brasil a combater os incêndios na floresta.

— O presidente Bolsonaro, que acredita que pode agir com impunidade e acelerar a destruição da floresta tropical da Amazônia, precisa saber que há consequências na vida real por suas ações imprudentes.

O ato incluiria banir produtos importados do Brasil como carne, soja e outras commodities que contribuam para o desmatamento, congelar concessão de financiamento de ajuda ao Brasil e afirmar que o Congresso vai se opor a um acordo de livre comércio com o Brasil.

Outro senador que se pronunciou recentemente sobre a situação na Amazônia foi o democrata Brian Schatz , do Havaí. Na semana passada, o senador afirmou pelo Twitter que os Estados Unidos não podem tratar a situação atual com normalidade e que o governo Trump deve “comunicar que o relacionamento bilateral entre Estados Unidos e Brasil está em perigo”.

Schatz também afirmou que as empresas americanas no Brasil deveriam se comprometer a sair do país se o governo não reverter o curso e parar de deixar fazendeiros porem fogo na floresta.

— A Amazônia está pegando fogo e, ao invés de confrontar essa crise, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro está apontando o dedo para organizações não governamentais encarregadas de proteger a floresta tropical e chamou de falsos os relatórios do seu próprio governo sobre desmatamento.

O senador prometeu tomar medidas mais concretas assim que o Senado voltar do recesso.

— Quando o Senado voltar, vou trabalhar com meus colegas para suspender todas as fontes de financiamento que nós provemos ao Brasil até que esta crise termine.

Candidatos democratas à Presidência também se pronunciaram sobre a situação na Amazônia . Pelo Twitter, a senadora Kamala Harris afirmou no último dia 24 que Trump não deve se engajar em um acordo de comércio com o Brasil até que Bolsonaro “reverta suas políticas catastróficas e lide com os incêndios”.

Em cartas aos senadores Kamala Haris e Brian Schatz, o encarregado de negócios do Brasil nos Estados Unidos, embaixador Nestor Forster Jr. afirmou que, de acordo com dados da Nasa, os incêndios deste ano estão próximos da média dos últimos 15 anos. Forster Jr. também se colocou à disposição dos congressistas para fornecer mais informações sobre o assunto.

Já o senador democrata pelo estado do Vermont e também pré-candidato à Presidência, Bernie Sanders , afirmou em entrevista à Hill TV que com certeza consideraria impor sanções ao Brasil por causa dos incêndios caso se torne presidente.

— Nós usaríamos todas as ferramentas que estiverem à disposição (...) para tentar garantir que paremos os incêndios da Amazônia, e, de fato, que trabalhemos com o resto do mundo para ir adiante para proteger o planeta.

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da Redação

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