Odebrecht: Imagem de símbolo da corrupção e política são desafios à recuperação judicial

Por Henrique Gomes Batista de O Globo

SÃO PAULO - Não bastasse ser a maior recuperação judicial da História do país , com dívidas que somam R$ 98,5 bilhões, o plano de recuperação da Odebrecht, protocolado na noite de segunda-feira na Justiça paulista, teve que levar em conta outros dois fatores: o símbolo que a empresa se tornou pelo seu histórico de corrupção e o momento político do Brasil, uma vez que alguns dos principais credores são bancos públicos, ligados ao governo federal.

Até agora, a Odebrecht definiu que buscará vender ativos, sem ter definido quais, e que lançará títulos aos credores no valor das dívidas que foram incluídas no plano de recuperação: R$ 51 bilhões. Para que eles recebam o dinheiro de volta, é necessário que o grupo consiga vender empresas ou que volte a ter lucro.

A empresa alerta que, mais que um mero negócio, a recuperação judicial envolve a maior empreiteira do país, a segunda maior produtora de etanol brasileira e a terceira maior petroquímica do planeta. Mas para grande parte da população trata-se da empresa mais corrupta da História, cujos desdobramentos ajudaram a manchar a imagem e a mergulhar o país em sua mais profunda recessão.

A continuação das investigações, que não param de gerar manchetes policiais, acabam contaminando o nome da empresa. “Estas notícias ruins se referem à velha Odebrecht, não à nova”, afirmou um executivo da companhia. Pode ser, mas o fato da empresa ter mantido o nome e o controle acionário não gera boa vontade da opinião pública.

Neste contexto, a solução por criar novos títulos para os atuais credores ajuda no convencimento político. Este novo ativo terá o valor da dívida atual, embora todos saibam que apenas uma pequena fração será paga. Mas isso evita o custo político que recairia sobre a Caixa, o Banco do Brasil e o BNDES na gestão de Jair Bolsonaro ao aceitarem dar generosos descontos, que podem se aproximar a 90%, para uma empresa que tem o nome associado aos governos do PT.

A Odebrecht foi fundada por Norberto Odebrecht (atrás na foto), avô de Marcelo (à esquerda), hoje em prisão domiciliar, e pai de Emílio (à direita), em foto na frente de quadro do patriarca da família, também chamado Emílio. Foto: Acervo Odebrecht

A entrada da recuperação judicial mostrou como a empresa seguia generosa: 48 de seus delatores têm créditos a receber que somam R$ 437 milhões . A empresa alega que o valor que estes executivos, que atuaram na “fase suja” da empresa, receberão será muito menor, apenas o que se refere à Participação de Lucros e Resultados.

A redução dos valores é mais uma tentativa de driblar os problemas de imagem da companhia. A maior parte deste crédito, incentivos de longo prazo que se equivalem à compra de ações das empresas do grupo, serão tratados como dívidas quirografárias e, neste caso, apenas uma fração do esperado entrará nos bolsos dos diretores e ex-diretores.

Pontos como estes indicam como, no caso da Odebrecht, a recuperação judicial será mais complexa que o esperado. Não se trata apenas de um intricada estrutura financeira, de uma negociação que tende a ser tão dura quanto o valor que os principais bancos do país podem ser afetados com esta dívida. Vai ser sempre analisado também com a ótica política e com a opinião pública lembrando, a todo momento, que mais que uma empresa, uma construtora e uma petroquímica, este processo trata de um símbolo da corrupção do país.

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da Redação

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