Fernanda Young nunca buscou paz nem descanso

Por Ruth de Aquino colunista do O Globo

O que são essas amizades tardias, que nos fazem escancarar as portas? A gente se abre até por egoísmo, porque essas pessoas adicionam a nossa vida algo fresco, original, selvagem de tão honesto. Fernanda Young, você não tinha o direito de partir antes de nosso próximo encontro, para me contar mais sobre sua peça, sua nova provocação, seu novo salto. Você me falou em seu áudio de 31 de julho:

“Estou encenando uma peça. Estou atuando. Muito estranho. Primeira vez que atuo num texto que não é de comédia e escrito por mim. É uma peça interessantíssima com a Fernanda Nobre. Eu faço uma diretora e ela uma atriz em cena, com aqueles embates pessoais bem dramáticos e nós fazemos duas mulheres que são amantes...então é uma agarração...é maravilhoso...porque sabe... é pah! na cara dos caretas...aí eu, com minha incrível má fama acabo sempre por não deitar na cama, mas adoro provocar. Ah, muito legal. Estou muito feliz. Agora está tudo bem”.

E num engarrafamento de estrada eu fico sabendo que não está tudo bem, que está péssimo e triste porque você foi embora, Fernanda? Que roteiro mal escrito, que drama sem pé nem cabeça, que vontade de acreditar em reencarnação. Imagino que você riria sua risada rouca ao ler textos piegas assim, tanta gente chorando essa despedida surreal. Você que se dizia “uma tímida espalhafatosa”, uma carente recolhida e incompreendida. Muita energia como a sua não se apaga, qualé? Antes dos 50, antes da metade da vida? Você prometeu em rede social na sexta-feira: “Estou longe de encerrar minha jornada nessa orbe”. Fake news ou você descobriu uma outra orbe sem contar pra gente?

Conheci Fernanda Young pessoalmente há pouco mais de um ano. Começou como relação puramente profissional. Eu era diretora e a convidei para ser colunista do Globo, por ser aquela mulher livre, incorreta e cáustica, sem pertencer a turma alguma que a fizesse se curvar. Nem de ideologia nem de gênero. Outras pessoas serão muito mais capazes de escrever sobre a FY de teatro, de televisão. Fiquei amiga da FY cronista e achava um privilégio essa aproximação.

Em menos de um ano, você se desilude ou se apaixona por alguém. FY foi amor à primeira vista. Ela olha dentro dos seus olhos. Gosto de gente assim. Para mim, ela era uma roteirista incrível, uma celebridade desconcertante. E remota. Mas aí surgiu aquela pessoa diante de mim com muitas coragens que não tive. Tatuagens. Mudanças radicais na aparência ao longo da vida. Quatro filhos e um casamento até que a morte os separe. Bissexualidade assumida. Uau. E com uma aplicação e uma timidez, você acredita? Eu não acreditava. Nos encontramos e nos correspondemos. E qualquer recado dela era bem escrito.

“Eu escrevo em qualquer dia! Escrever é a minha boia e o meu dever”. Essa foi uma das mensagens que FY me mandou por WhatsApp há uns meses. Como pode alguém tão anticonvencional ser tão dedicada a seu ofício, tão ansiosa para aprender, tão perfeccionista? Ela escrevia cinco colunas para publicar uma, ela queria agradar e desagradar, brigava com o que ela própria chamava sua “verborragia”, me mandava esboços. “Sou romancista, que exercício escrever com precisão e força em 2 mil toques!” Quando comentei que ela poderia quem sabe ter um blog diário no Globo, respondeu: “Não alimente a Besta Fera, tenho opinião sobre quase tudo! E assumo livremente a minha enorme capacidade de falar merda!”

FY me fazia sorrir em conversas virtuais: “Sou muito distraída, o que me traz inúmeras desvantagens, mas já aceitei. Sou um tipo que pode beber com inimigo e mandar chefe tomar no cu, porque não reconheço. Guardo as feições de poucas pessoas. Tem até um termo para essa deficiência em inglês. Um problema, porque eu passo por mal-educada. Diz Alexandre (marido) que na verdade eu só guardo as pessoas que me instigam. E que isso é mesmo péssimo, mas que seleciono a minha memória. Quase não saio porque sou uma gafe ambulante”.

Fernanda achou o máximo se tornar colunista num espaço sisudo e tradicional como o de Opinião do Globo, e como seria diferente, se a vida para ela era uma sucessão de experimentações? “Eu sou engraçada nas entrelinhas, outras vezes sou somente séria, também gosto da linguagem poética. Mas, com certeza, sempre anárquica. Farei por merecer a coluna oferecendo sempre o meu melhor. Estar ao lado de Gabeira (nas páginas de Opinião) chega a me emocionar. Não o conheço pessoalmente. Na década de 80 eu era apaixonada por ele. Amor de adolescente...”

Um texto seu, publicado no ano passado, continua muito atual. Chamava-se "A arte e o ódio". Começava assim: "Tenho, como escritora, deficiências, mas talvez a pior delas seja a ideia fixa em certas questões — portanto, peço desculpas. Mas, gente, o que é que está acontecendo? Brasileiro agora deu para ter ódio de artistas. Viramos todos uns “esquerdistas” que comem caviar, mamando em alguma teta. E “essa mamata vai acabar”. É uma implicância específica com quem faz arte — os famosos por qualquer outro motivo, tudo bem. E famoso por qualquer outro motivo é o que não falta". A sorte, dizia ela, era que fazer Arte "não é fácil". FY se sentia artista multidimensional. E não conseguia se restringir a uma arte só.

Ela nasceu em Niterói, vivia em São Paulo e publicou no Globo uma coluna genial sobre o Rio de Janeiro, aqui vai um

trecho:

“Mudei para São Paulo em 1994. Decisão tomada após ler uma frase de Henry James: ‘Piorar é muito mais fácil’. Eu tinha 24 anos e identificava claramente um mantra ecoando pela cidade mais linda do mundo: vai dar merda, vai dar merda…De lá para cá, quatro governadores do Rio acabaram presos. A repetição desse padrão me faz pensar onde estará o problema: nos políticos ou nos eleitores? Se você se casa com um marido ruim, tudo bem, deu azar, mas se você casa quatro vezes seguidas com quatro maridos ruins, desculpe, há algo de errado. Serão os cariocas mais fáceis de enganar? Não, pelo contrário, cariocas são famosos por serem espertos. Serão os políticos fluminenses excepcionalmente geniais na arte da enganação? Não, se fossem não seriam presos. Então, por que essa maldição sobre o lugar? O Rio foi construído em cima de algum cemitério indígena? Estará o Rio pagando o preço pela inveja que causa no mundo? Será que tanta beleza ao redor confunde o eleitor? Ou será que Deus enfim se encheu dessa mania de ir ao supermercado de sunga?”

Fernanda, eu não sei onde Deus estava com a cabeça para te levar assim de repente sem piedade de nós. O título de sua peça, “Ainda nada de novo”, não passa de uma outra sacanagem. Você era uma novidade constante, quase impertinente, de tirar o fôlego para quem conhecia a torrente de suas palavras e emoções. Uma inspiração para mulheres que desejam ser livres de verdade e não só parecer. Essa orbe aí para onde você se mudou não tem ideia do que você vai aprontar. Para você, RIP não existe, seria uma contradição. Seu último post é claro, curto e preciso: "Onde queres descanso, sou desejo". Nunca buscou paz nem sossego. Não vai ser agora.

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da Redação

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