Com crise em torno da Amazônia, cresce temor de boicote a produto brasileiro

Por Pollyanna Brêtas , Gabriel Martins , Gustavo Schmitt e Vivian Oswald do O Globo

RIO, SÃO PAULO e LONDRES - Diante da crise internacional desencadeada pelas queimadas na Amazônia, analistas e produtores nacionais já temem que produtos brasileiros sejam alvo de boicote por empresas e consumidores estrangeiros. Nas redes sociais, já começaram a circular convocações para um movimento de boicotes a mercadorias “made in Brazil”, com a hashtag #BoycottBrazil.

Nos chamados nas redes sociais, fala-se em não consumir produtos de origem animal e até mesmo no cancelamento de viagens internacionais que tenham como destino o país.

A revista britânica Newstatesman também defendeu o boicote: “agora é hora de ser agressivo. Boicote os produtos brasileiros. Faça da associação com o Brasil uma mancha feia para as companhias internacionais".

Na avaliação de especialistas, como eventuais sanções por parte dos governos europeus poderiam levar aquestionamentos na Organização Mundial do Comércio (OMC), não seria surpresa se esses governos apoiassem o movimento de boicote, ainda que não publicamente.

— Os produtores agrícolas europeus podem fazer apelos junto aos consumidores, para que eles não comprem produtos de origem ou feitos com matéria-prima brasileira — ressaltou Welber Barral , ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil e sócio da consultoria Barral M Jorge.

‘Commodities’ em risco

Para o professor e pesquisador sênior de agronegócio global no Insper, o economista Marcos Jank, sob pressão de seus governos, as empresas também podem criar novas restrições para a compra de produtos brasileiros, como a exigência de certificações.

— Os acordos comerciais seguem normas da OMC, sendo assim, é preciso ter debates e as medidas implantadas afetariam outros mercados. O principal risco para o Brasil, na atual situação, é que as empresas europeias passem a dificultar a entrada de produtos brasileiros em seus territórios, principalmente as commodities.

Maior produtor de soja do Brasil, o ex-ministro e ex-senador Blairo Maggi teme boicote ao setor.

— Há uma preocupação com a possibilidade de boicote porque somos concorrentes muito fortes na Europa e dos europeus em outros mercados — disse Maggi.

Floresta destruída em Altamira (PA): maior município brasileiro foi o que mais registrou focos de incêndio nas três primeiras semanas de agosto Foto: Victor Moriyama/Greenpeace

O empresário acredita que o dano ao meio ambiente não seja tão grave quanto tem sido divulgado, embora admita que não há mais o que discutir sobre o tamanho do estrago em meio ao debate acalorado.

— As entidades do agronegócio estão muito preocupadas — afirmou Maggi.

A crise em torno da Amazônia se intensificou justamente no momento em que o consumidor mais quer saber a origem dos produtos que leva à mesa, e exemplos de prejuízos causados por boicotes de consumidores não faltam.

O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), Bartolomeu Braz Pereira, atribuiu a intensidade da repercussão no exterior a uma disputa comercial:

— A questão é que países como a França estão aproveitando a oportunidade para tentar nos atingir, porque eles sabem que não conseguem competir com nossos produtores. Lá, o setor só se sustenta com subsídios. Nós preservamos de 20% a 30% das nossas propriedades, conforme prevê o Código Florestal. Quanto às queimadas, os números estão dentro da média. Não há motivos para alarme — disse.

Novos tipos de barreiras

Na França, uma marca de sucos estampa com destaque no rótulo que o produto é feito com frutas que não tiveram contato com agrotóxicos. Há alguns meses, a rede de supermercados sueca Paradiset propôs o boicote a produtos brasileiros em função da liberação do uso de agrotóxicos na agricultura.

Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central e diretor do Centro de Economia Mundial da FGV, destaca que está crescendo no mundo uma nova dimensão de barreiras no comércio mundial, chamadas de não tarifárias e com viés protecionista.

— É uma forma de barreira não tarifária incluir na agenda questões ambientais principalmente com a visibilidade da Amazônia, usada com grande repercussão na mídia e redes sociais. Isso também coincide com a onda protecionista a guerra tarifária entre os Estados Unidos e China.

Governadores de Sul e Sudeste oferecem ajuda

No 4° Encontro do Consórcio de Integração Sul e Sudeste (Cosud), realizado em Vitória, governadores do Sul e Sudeste reforçaram a importância do compromisso brasileiro com a biodiversidade e ofereceram ajuda, com recursos humanos e tecnologia, aos governadores do Norte para conter as queimadas.

“Os temas ambientais devem ser objeto de diálogo, buscando entendimento para fortalecer a imagem internacional do Brasil, reforçando nosso compromisso com biodiversidade e preservando as exportações do país, sobretudo do agronegócio".

Em carta, Paulo Hartung, ex-governador do Espírito Santo e atual presidente da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), defendeu que o governo abra um canal de diálogo e passe a propor soluções para a questão do meio ambiente sem "partidarismo" ou "viés ideológico".

"A Indústria Brasileira de Árvores reitera sua posição contrária aos desmatamentos e incêndios ilegais.Não podemos permitir que anos de trabalho do setor privado, da academia, de pesquisadores, de ambientalistas e de todos nós brasileiros sejam jogados fora. Chegamos em um momento em que é preciso ações integradas para garantir o desmatamento ilegal zero na Amazônia e no Brasil", escreveu Hartung.

Ajude-nos a continuar nosso trabalho independente. Você jamais será livre, sem uma imprensa livre. Contribua.

da Redação

Comentários