Análise: Projetos pessoais ainda mantêm Moro e Bolsonaro atrelados

Por Thiago Prado do colunista do O Globo

Se Jair Bolsonaro e Sergio Moro estão incomodados um com o outro há tanto tempo, como sinalizam os bastidores de Brasília, por que não encerram a parceria iniciada em 1º de novembro do ano passado, dia do convite para a entrada do ex-juiz da Lava-Jato no Ministério da Justiça? As ambições de cada um para os próximos anos indicam uma resposta.

Ainda que Moro já tenha negado algumas vezes a intenção de entrar na política, o entorno de Bolsonaro não acredita nesse discurso e o vê como potencial adversário na disputa pela reeleição em 2022. No início do mês, em entrevista publicada pela revista “Isto É”, ao responder sobre a possibilidade de entrada na política, Moro não foi tão incisivo na negativa quanto em outras oportunidades. “Está muito cedo para falar em eleições futuras”, disse.

O ex-juiz da Lava-Jato é o ministro mais bem avaliado do governo — o último Datafolha, de julho, o colocou classificado como ótimo ou bom por 52% dos entrevistados. Nas manifestações pró-governo nos últimos meses, foi possível mensurar seu apoio popular — bonecos infláveis do ministro vestido como Super-Homem estiveram presentes nas ruas. Fora da magistratura e da Esplanada, Moro estaria livre para concorrer nas urnas, temem os bolsonaristas.

Por outro lado, o ministro tem a expectativa de ser nomeado para o Supremo Tribunal Federal (STF) em novembro do ano que vem, quando o decano da Corte, ministro Celso de Mello, vai se aposentar. Em maio, Bolsonaro chegou a afirmar que havia um acordo para colocar Moro na vaga. Com a péssima repercussão da fala e o início dos ruídos entre o presidente e seu ministro, o discurso no Planalto mudou.

Passou-se a falar na necessidade de um ministro “terrivelmente evangélico”. O juiz da 7ª Vara Federal Criminal do Rio, Marcelo Bretas, e o advogado-geral da União, André Luiz de Almeida Mendonça, subiram na bolsa de apostas. Portanto, é difícil — até pela personalidade presidencial — imaginar que, se romper com Bolsonaro e pedir demissão, Moro terá chances de entrar no STF pelas mãos do presidente.

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da Redação

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