Marcos Jank: 'Risco é que empresas europeias embarreirem produtos brasileiros como carne e soja'

Por Gabriel Martins do O Globo

RIO — Professor e pesquisador sênior de agronegócio global no Insper, o economista Marcos Jank, um dos maiores especialistas em negociação comercial do Brasil, acredita que a crise internacional desencadeada pelas queimadas na Amazônia pode levantar novas barreiras a produtos brasileiros, como carne e soja, entre empresas europeias. E, ainda, dificultar a ratificação do acordo entre Mercosul e União Europeia.

Jank tem larga experiência no setor privado e chefiou as operações da BRF na Ásia. Ele explica que dificilmente os governos adotariam barreiras comerciais contra o Brasil, que poderiam ser questionadas na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Mas, sob pressão de seus governos, as empresas podem criar novas restrições para a compra de produtos brasileiros, como a exigência de certificações.

Jank também lamenta o que pode ser uma reversão na recente guinada do Brasil em busca de mais acordos comerciais.

— Nas últimas duas décadas, o Brasil não assinou nenhum acordo importante. Caso o acordo com a UE não seja concretizado, pode fazer com que o tempo de espera aumente ainda mais — destaca o economista.

França e Irlanda disseram nesta sexta-feira que não vão ratificar o acordo entre Mercosul e União Europeia. O acordo pode realmente não sair do papel?

Existe o risco, sim. Uma vez que o texto precisa passar pelos parlamentos de todos os países membros dos dois blocos, existe o risco de que ele seja barrado por conta das cláusulas ambientais que estão presentes no acordo. É uma discussão que levou 20 anos para ser concluída e, infelizmente, por problemas de comunicação entre Brasil e Europa, pode acabar prejudicando tanto este acordo quanto outros, que ainda nem em debate estão. Nas últimas duas décadas, o Brasil não assinou nenhum acordo importante. Caso este não seja concretizado, pode fazer com que o tempo de espera aumente ainda mais.

O que o Brasil perde sem um acordo entre os dois blocos econômicos?

Na verdade, ele deixa de ganhar. O acordo tem potencial para abrir novas negociações com outras regiões importantes para o Brasil, como o Sudeste asiático. Na perspectiva da União Europeia, os produtos brasileiros teriam mais facilidade para acessar um mercado difícil de entrar. Além disso, o acordo tem potencial para facilitar investimentos, inovação e cooperação tecnológica. Até então, o Brasil estava caminhando para a retomada de grandes negociações comerciais com outros países. É preciso solucionar os problemas atuais para que esta tendência não seja revertida.

De que forma o Brasil pode ser afetado, caso o país siga com uma imagem abalada no exterior?

Inicialmente, acredito que uma retaliação por parte de governos europeus seja mais difícil. Os acordos comerciais seguem normas da Organização mundial do Comércio (OMC), sendo assim, é preciso ter debates e as medidas implantadas afetariam outros mercados. Avalio que o principal risco para o Brasil, na atual situação, é que as empresas europeias passem a dificultar a entrada de produtos brasileiros em seus territórios.

Como isso poderia ser feito?

Uma vez que os governos não podem atuar de forma direta sem responder às normas internacionais, eles podem pressionar as empresas locais a embarreirarem a entrada de produtos brasileiros. Por exemplo, exigir certificações mais duras para produtos como carne e soja. Na atual situação, o maior risco para o Brasil é este cenário de mais exigências por parte das empresas que compram o que é produzido pelo país, principalmente as commodities .

Como o Brasil pode reverter este cenário e melhorar sua imagem no exterior?

É preciso que o diálogo seja a pedra angular neste momento. Uma vez que os governos europeus atacam o Brasil, o governo brasileiro não deve contra-atacar. É preciso que os fatos sejam apresentados. Temos um código florestal, a maior parte do agronegócio produz de acordo com as normas. Em meio a este cenário, o Brasil deve apresentar os ganhos e avanços que teve.

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da Redação

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