'Modelo de negócio de gigantes da internet é perigoso’, alerta Nobel de Economia

Por Luciana Rodrigues e Rennan Setti do O Globo

RIO - Estudioso do impacto do conhecimento sobre o crescimento, o americano Paul Romer — um dos ganhadores do Nobel de Economia de 2018 — enxerga nas habilidades sociais um dos trunfos do mercado de trabalho do futuro. Mas o professor da Universidade de Nova York (NYU, na sigla em inglês) considera que essas habilidades são negligenciadas por escolas e empresas, e podem estar sendo minadas pela exposição de crianças a interações mediadas por dispositivos digitais. Para ele, investir em capital humano é o caminho para reduzir a desigualdade.

Romer, de 63 anos, falou ao GLOBO em rápida passagem pelo Rio, dias antes de embarcar para o mítico Burning Man, festival experimental que reúne milhares de pessoas no deserto de Nevada, nos EUA. Ele deu palestra na noite de quarta-feira, na entrega do Prêmio CBMM de Ciência e Tecnologia, no Museu do Amanhã.

A desaceleração do avanço da produtividade tem preocupado muitos economistas. Quais são seus efeitos sobre o crescimento?

Há quem acredite que, no estágio atual, tornaram-se cada vez mais difíceis novas descobertas. Mas não estou convencido disso. O que é dominante hoje é uma incerteza significativa nas principais economias do mundo, o que desencoraja o investimento. Vivemos sob um nível inusualmente elevado de incerteza e de baixo investimento. Isso está muito ligado a fatores políticos. E o problema é que levará tempo até encontrarmos um novo equilíbrio político.

Quando o sr. fala em incerteza, refere-se a questões como a guerra comercial entre EUA e China?

Sim. Entre 1982 e 2007, houve um boom global, marcado pela rápida expansão do comércio. Hoje, estamos em uma nova era na qual não haverá crescimento tão rápido e será mais difícil para os países aderirem ao sistema comercial global. É uma pena, mas é a nova realidade.

Essa nova era, mais protecionista, pode dificultar o avanço do conhecimento em escala global?

Há um consenso político que talvez limite a continuidade da expansão do comércio. Mas pode-se imaginar um mundo em que o conhecimento atravesse fronteiras sem que isso exija fluxo de mercadorias. Já tivemos um exemplo disso no passado, quando os EUA pressionaram o Japão, e os japoneses adotaram restrições voluntárias. Em vez de vender veículos, os japoneses exportaram seu modelo de fabricação. É provavelmente por esse caminho que a maior parte do mundo vai seguir. Mas essa mudança causa incerteza hoje.

Isso exigiria a reforma da Organização Mundial do Comércio (OMC)?

Está ficando claro que o sistema da OMC não pode funcionar. Ele presume que todos os países vão querer adotar a política do laissez-faire (contra intervencionismo), e nós fingimos que isso é verdade. Mas não é. O exemplo mais óbvio é a China. Os EUA têm de reconhecer que alguns países podem decidir por um modelo econômico diferente e que, ainda assim, pode haver ganhos comerciais com isso. Mas precisaríamos de regras mais realistas, diferentes daquelas da OMC.

O “laissez-faire” então nem sempre é o melhor modelo?

Isso está sendo debatido, mas vemos algumas fragilidades no modelo até mesmo nos EUA. Um sintoma é a desigualdade. Outro é a menor competição. E ainda o fato de que algumas empresas influenciam o ambiente político e fragilizam a imprensa.

E o que os governos podem fazer para lidar com essa pouca competição no setor de tecnologia e com a influência que essas empresas passaram a ter na política?

Modelos de negócios nos quais as empresas oferecem coisas de graça mas tiram vantagens dos clientes de uma maneira que eles não compreendem são muito ruins. A maneira correta de um mercado funcionar é: você paga para alguém que lhe vende alguma coisa, você sabe o que está pagando e sabe o que está comprando e, se você não gosta, compra de outra pessoa. É preciso abandonar esse modelo de publicidade direcionada (como a utilizada no Facebook pelas campanhas do Brexit e de Donald Trump, cerne do escândalo da firma de marketing político Cambridge Analytica), que manipula as pessoas e espiona os hábitos dos consumidores.

“Permitir que essas crianças se desenvolvam em um ambiente onde tudo gira em torno das mídias sociais cria pessoas atrofiadas” PAUL ROMER Professor da NYU

E como resolver isso?

Um modelo de negócios melhor seria o de assinaturas. Se alguém gosta de um streaming de música, vai querer pagar uma assinatura mensal. Se alguém gosta de um jornal, paga uma assinatura. Mas o modelo baseado em publicidade direcionada e que manipula é muito perigoso. Minha sugestão é taxar a receita da publicidade direcionada com um imposto progressivo. Quanto maior a receita com publicidade direcionada, maior a alíquota. Isso pode criar incentivos para que as grandes empresas se dividam em unidades menores.

A distribuição desigual do conhecimento é uma das razões para a crescente desigualdade econômica?

Uma boa medida de igualdade é a mobilidade de renda intergeracional. E grande parte dela tem a ver com o sistema educacional. Investir em capital humano é a melhor maneira de reduzir a desigualdade e de expandir o PIB e a produtividade. E o capital humano é o conhecimento armazenado na cabeça das pessoas.

O mercado é capaz de, sozinho, proporcionar isso?

Se a renda da família define a qualidade da educação do aluno, você freia a mobilidade intergeracional. Logo, é preciso oferecer as mesmas oportunidades de educação para todos.

Isso significa investir na educação pública, certo?

Há várias maneiras de se fazer isso. Mas o objetivo deveria ser que todos tenham acesso a uma educação com a mesma qualidade. O problema é que o sistema educacional não ajuda quem já está no mercado de trabalho. As discussões negligenciam o fato de que as pessoas aprendem no trabalho. Logo, é preciso garantir, primeiro, que as pessoas estejam trabalhando, porque o pior trabalho, em termos de aprendizagem, é não haver trabalho. E é preciso encorajar as empresas a aumentarem salários e habilidades a longo prazo.

Deveríamos nos preocupar com as previsões de que a inteligência artificial destruirá um grande parcela de empregos?

Todo mundo quer falar sobre os problemas do mercado de trabalho do futuro. Mas não sabemos como será o futuro e temos problemas no mercado de trabalho hoje! Tem muita gente sem trabalho, e precisamos resolver isso.

Quais são as consequências da chamada “gig economy” (economia dos bicos) para a geração de conhecimento no emprego?

O modelo da Toyota exigia que os funcionários trabalhassem juntos de maneira eficiente. Então, então eles investiam nessa capacidade. O Uber criou um modelo que ganha dinheiro sem requerer habilidades sociais, aprimoramento do trabalho etc. Esse é um extremo, e há exceções. Mas temos de lembrar que empresas, basicamente, tentam ganhar dinheiro. Hoje, particularmente, elas não querem investir em pessoas, e só fazem porque precisam. A sociedade deveria fazer com que elas queiram. Se começarmos a medir quais empresas e empregos colocam as pessoas no caminho de mais conhecimento e habilidades, estaríamos criando um incentivo.

Voltando à questão da mobilidade intergeracional, quais políticas públicas poderiam ser adotada para garanti-la?

Ter boas escolas é importante. Mas ter acesso a bons empregos, nos quais você se desenvolve e adquire habilidades sociais, é tão importante quanto. Mas uma das questões que uma sociedade deve fazer é: você quer ter mais igualdade? Porque isso demanda uma maior carga tributária. E algumas sociedades podem não querer isso. É preciso ter em mente que uma das commodities mais em falta em muitos países hoje é algum senso de propósito comum (para a sociedade), de que “estamos nisso juntos” e “queremos chegar a um objetivo comum”. Em sociedades onde não há propósitos em comum, em que há grande animosidade, normalmente não há muita preocupação com o combate à desigualdade.

Quais temas deveriam estar no foco do Nobel de 2019?

Não sei. Mas posso dizer qual tema os jovens economistas deveriam estudar. Precisamos entender o que motiva as pessoas e como se acumula habilidades sociais. Tenho colegas que acreditam que é muito ruim para as habilidades sociais que crianças pequenas interajam com outras a partir de aparelhos eletrônicos. Eles estão perdendo a oportunidade de ter interação face a face, a argumentação e a reconciliação. Permitir que essas crianças se desenvolvam em um ambiente onde tudo gire em torno de performance em mídias sociais está criando pessoas atrofiadas.

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da Redação

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