Com rachas internos, PSL planeja expansão sob risco de dissidências

Por Guilherme Caetano do O Globo

Passados quase oito meses do governo de Jair Bolsonaro , o PSL colocou nas ruas, ontem, seu ambicioso plano para entrar na lista dos dez maiores partidos do Brasil em número de filiados. Com sua campanha nacional de filiação , a sigla quer transformar seus atuais 271 mil filiados em um milhão até outubro de 2020. Mas o partido do presidente da República ainda sofre com rachas internos e vê com preocupação a agenda própria de algumas de suas principais lideranças, cobiçadas por outras siglas.

Se era tido como um partido nanico até o ano passado, o PSL, hoje com a segunda maior bancada da Câmara, pode esperar por um 2020 de fartura. A legenda deve receber nos próximos quatro anos R$ 737 milhões dos fundos partidário e eleitoral. Para o cálculo deste último, a lei considera a quantidade de parlamentares no partido no último dia da sessão legislativa imediatamente anterior ao ano eleitoral .

O assédio de outros partidos e eventuais dissidências, no entanto, podem diminuir esse valor. Para cada deputado expulso, o PSL pode perder R$ 3,47 milhões. Foi o caso de Alexandre Frota, que, apesar de seu desempenho na defesa da reforma da Previdência e na articulação pela sua aprovação, foi retirado do PSL por criticar Bolsonaro publicamente . Cobiçado por vários partidos, Frota acabou se filiando ao PSDB . Além dele, alguns deputados do PSL já atraíram o interesse de outras siglas.

‘Abacaxi caiu no meu colo’

Próxima ao agora tucano Frota, a deputada Joice Hasselmann (SP), líder do governo no Congresso, já declarou a intenção de se candidatar à prefeitura de São Paulo. Ontem, em evento para promover filiações ao PSL, em Barueri, na região metropolitana de São Paulo, o clima foi festivo em torno da eventual candidatura da deputada para a eleição municipal.

Após recepção calorosa, Joice tomou o microfone e preferiu deixar para o fim do discurso que tratava especificamente do convite à filiação. Falou sobre sua possível candidatura, defendeu o “jeito brucutu” do presidente Jair Bolsonaro , e afirmou preferir um “presidente de maus modos e bons princípios” a um “mauricinho que vai lá e rouba”. Mais tarde, ela falou com a imprensa.

— O abacaxi caiu no meu colo. Sobrou pra mim — declarou ela, surpresa pelo caráter “inesperado” do evento e sua recepção como postulante do PSL à eleição municipal. — Sou candidata com “pré” na frente. São Paulo precisa de um candidato de direita de verdade.

Caso sua candidatura seja barrada internamente, a avaliação no meio político é que ela pode procurar outra legenda. Joice está no radar do governador de São Paulo, João Doria, que quer filiar nomes de destaque na política nacional para tentar dar nova identidade ao PSDB e recuperar votos nas próximas eleições.

Gil Diniz, líder do PSL na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) e segundo mais votado da legenda no estado, e Edson Salomão, chefe de gabinete do deputado Douglas Garcia e líder do Movimento Conservador, também já manifestaram a intenção de disputar a prefeitura. Bolsonaro sinalizou, no entanto, interesse pela candidatura do apresentador José Luiz Datena, hoje sem filiação, ao posto.

O caso de Frota chamou a atenção para outros quadros do partido que não escondem ter uma agenda com pontos distintos do que defende o PSL e o presidente. O governador de Santa Catarina, Carlos Moisés, tem propostas por vezes antagônicas ao que tem sido pregado pelo Planalto. Em entrevista à “Folha de S.Paulo” na última segunda, além de acenar a pautas LGBT e indígena, ele criticou o uso de agrotóxicos e o “pessoal da arminha”, referindo-se ao eleitorado mais radical de Bolsonaro.

Janaina Paschoal expõe suas divergências com o presidente em grupos do PSL Foto: Ailton de Freitas/28-6-2016 / Agência O Globo

Janaina Paschoal , o rosto do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e a deputada estadual mais votada em São Paulo, é outra parlamentar a trabalhar alheia à “linha bolsonarista”. Ela não participa da vida partidária e tampouco esconde suas críticas às ações do governo e do presidente.

A deputada cogitou deixar o partido em maio. No grupo de WhatsApp da bancada do PSL na Alesp, ela enviou um áudio criticando Bolsonaro por ter publicado em seu perfil no Facebook um vídeo do pastor congolês Steve Kunda defendendo o presidente como um político “estabelecido por Deus” para guiar o país. Depois, disse aos colegas que eles estavam “sendo cegos” ao defender a atitude de Bolsonaro e que veria “como faço para sair da bancada”.

Outra cortejada pela concorrência, a deputada federal Alê Silva está insatisfeita com o presidente do partido, Luciano Bivar. Após denunciar o “laranjal do PSL”, ela diz ter sido ameaçada pelo ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, e retaliada por Bivar, que a retirou de comissões na Câmara. Sem dizer o nome das siglas, ela afirma que foram três os convites para deixar o PSL.

Para Bivar, que está há 21 anos na presidência do PSL, possíveis saídas de deputados não afetarão o partido.

— Não, não, a cara é a mesma. Aliás, há vinte anos é a mesma cara. (Os deputados do PSL) estão muito convictos de que estão num partido onde há homogeneidade de pensamento. Aqueles que divergem do pensamento do PSL, claro, se sentem desconfortáveis, assim como nós, da executiva do partido — afirmou Bivar.

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da Redação

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