Interferência de Bolsonaro na Polícia Federal quase resulta em pedido de demissão do diretor-geral

Por Jailton de Carvalho do O Globo

BRASÍLIA — A interferência do presidente Jair Bolsonaro na troca de superintendentes da Polícia Federal irritou a cúpula do órgão e boa parte dos delegados que acompanham de perto os desdobramentos do caso. A pressão do presidente quase resultou no pedido de demissão do diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, o que levou Bolsonaro, em poucas horas, a amenizar o tom.

Segundo um delegado que acompanha o caso de perto, Bolsonaro pressionou a direção da PF a substituir imediatamente o delegado Ricardo Saadi, na Superintendência da PF no Rio, porque estava descontente com uma investigação no órgão.

Após declarar que Saadi deixaria a Superintendência da Polícia Federal no Rio por problemas de “gestão” e “produtividade” e de uma nota oficial da corporação negar que este será o motivo da troca, o presidente recuou na sexta-feira da tentativa de emplacar Alexandre Silva Saraiva, superintendente no Amazonas, para a vaga, pouco depois de dizer que “quem manda” é ele.

Em conversas com colegas nos dois últimos dias, Saadi confirmou que deixaria o cargo, mas só no no final deste ano, quando haveria uma nova dança de cadeiras entre superintendentes.

— Qual o motivo da antecipação dessa troca de comando agora? Ele (Saadi) e todos nós estamos surpresos e tentando ainda entender o que, de fato, está acontecendo — disse ao GLOBO um interlocutor do superintendente.

O presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal, Edvandir Paiva, voltou a criticar a tentativa de intromissão externa na polícia.

— Não queremos que o presidente seja um banana, como ele mesmo falou. Queremos que ele seja um estadista. O máximo que ele pode fazer é indicar o diretor-geral. Se ele quiser interferir na nomeações dos demais escalões da polícia, estará dando margem a crítica de que a polícia fez ou deixou de fazer alguma investigação por motivo político — disse Paiva.

A queda-de-braço pública pelo comando da PF no Rio começou na quinta-feira. Numa entrevista, na saída do Palácio do Alvorada, Bolsonaro disse, sem ser perguntado, que Saadi deixaria a Superintendência do Rio por motivo de “gestão” e “produtividade” . As declarações do presidente tiveram forte repercussão. Era a primeira vez que um presidente da República anunciava o afastamento de um superintendente. Historicamente, este é um assunto restrito ao diretor-geral. Nem o ministro da Justiça costuma abordar este tipo de questão.

Horas depois da entrevista de Bolsonaro, a direção da PF divulgou uma nota dizendo que Saadi seria, sim, substituído, mas por vontade própria . Ou seja, a saída dele nada tem a ver com baixa produtividade. O texto foi divulgado pelo Ministério da Justiça, num claro endosso de Moro a posição da PF. Na sexta-feira, Bolsonaro voltou a carga. Em mais uma entrevista, invocou os poderes de presidente da República e declarou que Saadi seria substituído por Saraiva e não por Sousa, como anunciara a direção da PF na quinta.

A partir daí, delegados da cúpula da PF reagiram com vigor. Valeixo fez chegar a Moro a informação de que, se não pode indicar superintendentes, não teria condições de permanecer no cargo. Quando percebeu o tamanho do problema, Bolsonaro recuou. Disse que a polícia poderia escolher qualquer delegado. Afirmou também que não queria se indispor com a instituição. Mas, para auxiliares diretos de Moro, a questão está longe de ser resolvida.

O superintendente da PF em Pernambuco, Carlos Henrique Oliveira Sousa, é um delegado respeitado dentro da PF. Ele já foi da contra-inteligência, um setor interno que investiga a própria polícia.

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da Redação

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