Ibaneis Rocha, o governador de R$ 94 milhões e sua compulsão por compras

Por Naira Trindade e Natália Portinari da Revista Época

A estreia em um leilão de gado geneticamente melhorado veio quase três meses depois de assumir o comando do Palácio do Buriti.

Em uma festa regada a uísque, vinho, champanhe e um cardápio sofisticado de massas, risotos e carnes, o interesse do governador do Distrito Federal (DF), Ibaneis Rocha, pela agropecuária de ponta despertou. Nos três lotes que arrematou, já invadindo a madrugada daquela terça-feira, 21 de março, em São Paulo, comprou, por R$ 276 mil, 50% da bezerra Seleta Fiv Taj, uma nelore de 17 meses cujo currículo inclui o 1º lugar no Prêmio Novilha Maior Expoinel Minas 2019.

Rocha bateu o recorde ao dar o lance mais alto da segunda edição do Leilão Sampa, que acontecia na Sociedade Hípica Paulista. Comprou a bezerra em sociedade com o amigo e empresário nelorista Aciole Castelo Branco.

Investiu também na compra de 50% de Givenchy Fiv Al Canaã e adquiriu Hematita, a última filha de Hematita TEHRO e Landau da Di Genio. Naquele debute, o advogado, que já havia se aventurado no mercado de gado de corte, deixou registrada uma de suas principais características: a paixão por comprar.

Ibaneis Rocha prepara um cozido de peixe no dia da votação do segundo turno da eleição, que venceu com 69% dos votos. Nascido no Distrito Federal, o governador cresceu no interior do Piauí, onde foi empacotador e feirante. Foto: Acervo pessoal

Novato na política, Rocha admitiu a compulsão por compras. Garantiu que seu relógio mais caro custou R$ 145 mil. Mas disse ter perdido as contas de quantas madrugadas venceu a insônia arrematando cabeças de gado em leilões de canais rurais pela televisão.

“Eu gastava e, de manhã, avisava a Luzineide, que pagava os boletos”, lembrou, referindo-se à ex-mulher, a contadora Luzineide Getro de Carvalho Barros, com quem esteve casado por 22 anos. Ibaneis Rocha é o segundo governador do DF a demonstrar interesse por gado geneticamente modificado. Em 2007, Joaquim Roriz renunciou ao mandato no Senado depois de ser acusado pelo Ministério Público do DF de ter sido favorecido pelo desconto no Banco Regional de Brasília (BRB) de um cheque de R$ 2,2 milhões emitido pelo empresário Nenê Constantino.

À época, alegou se tratar de um empréstimo para Constantino comprar o embrião de uma bezerra na Universidade de Marília, em São Paulo. O episódio deixou o ex-governador inelegível até 2015.

Em fevereiro deste ano, 50 dias depois de ter assumido o governo, Rocha mirou outras aquisições. Comprou um avião executivo modelo turboélice King Air, da fabricante Beechcraft, com capacidade para 11 passageiros, avaliado em R$ 7,4 milhões.

Na aeronave, que já transportou Michel Temer de saída da prisão, o governador emedebista embarcou para Guayaquil, no Equador, às 17 horas, em plena terça-feira 23 de julho, para acompanhar o jogo do Flamengo contra o Emelec, pelas oitavas de final da Copa Libertadores da América. Mas foi pé-frio. O Emelec venceu seu time por 2 a 0. Flamenguista roxo, ele conseguiu garantir um patrocínio ao time do coração, mas no basquete: assinou um contrato permitindo ao BRB pagar R$ 2,5 milhões ao time de basquete do Flamengo. Já o Brasília Basquete, time local, levou R$ 1,5 milhão.

Foto: Acervo pessoal

O patrimônio do governador é extenso. Ainda em fevereiro, comprou a casa mais cara já vendida em Brasília. Gastou R$ 24 milhões para ser dono do imóvel — de 2 mil metros quadrados de área construída e com um terreno cinco vezes maior. A mansão, que pertenceu à família do ex-deputado federal Heráclito Fortes (DEM-PI), fica na QI 5, no Lago Sul — área nobre da capital federal —, e foi vendida “de porteira fechada”: totalmente mobiliada, seis suítes, lago artificial, adega climatizada com capacidade para 600 garrafas e piscina com azulejos de autoria do artista pernambucano Francisco Brennand. Rocha, que em 2018 declarou patrimônio de R$ 94 milhões ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), disse tê-la financiado em três anos: R$ 1 milhão de entrada, R$ 6 milhões pagos em seguida e outras parcelas, que serão quitadas até 2022.

A mansão — sua sexta aquisição só na área nobre de Brasília — é apenas a cereja do bolo de uma vasta carteira de imóveis espalhados pelo Distrito Federal. Somente em quatro dos nove cartórios do DF há 328 propriedades registradas em nome da Ibaneis Administradora de Bens Patrimoniais Ltda., empresa que mantém em sociedade com a ex-mulher (ele se afastou do comando das empresas para assumir o governo).

Há também uma série de imóveis construídos em áreas irregulares de Brasília, cujo registros não constam nos cartórios de imóveis. Entrevistado por ÉPOCA durante a campanha, Rocha disse não fazer grilagem, mas admitiu ter comprado um terreno sem escritura em Sobradinho de um senhor que “sim, talvez seja grileiro”. Na ocasião, ele contou que os terrenos em Brasília seriam parte de um gosto por ver suas posses se materializarem. “Tudo que eu ganho em advocacia, eu invisto em imóvel. Gosto de ver, gosto de coisas palpáveis, não gosto de Bolsa de Valores, essas coisas.”

Foto: Acervo pessoal

O mesmo vale para os 14 mil hectares de terra com 8 mil cabeças de gado que detém nas duas fazendas no município de Sebastião Barros, no extremo sul do Piauí, e também em Parnaguá, no mesmo estado. “Primeiro, comprei gado e o deixava nas terras de meu sogro. Depois, ele disse que já estava na hora de eu ter minha fazenda. Comecei com uma pequenininha e gostei. Aí fui comprando as dos vizinhos, aumentando.”

O gosto do governador por bens palpáveis também transborda para o automobilismo. Ele tem seis carros de luxo. “Gosto muito de carro. Alguns ficam no fundo, outros ali na frente, mas é hobby.” Um deles é um Land Rover Discovery, que se tornou seu veículo oficial de trabalho. Com motorista e escolta, ele circula pelas avenidas de Brasília sem se preocupar em reduzir a velocidade nos milhares de radares eletrônicos da capital.

Há ainda gostos que enfrentam a oposição da burocracia estatal, como a incorporação imobiliária. “Eu gosto de construir. Estou reformando uma casa e não consigo construir mais, porque o governo não deixa. Tenho terrenos que comprei e já entrei com os projetos, mas não consigo aprovar. Mesmo o arquiteto sendo o secretário de Habitação ( do governo de Rodrigo Rollemberg )”, disse, à época da campanha para o governo do Distrito Federal. É nessa área que atua a administradora de imóveis, uma das empresas tocadas por Getro.

“NA ELEIÇÃO AO DISTRITO FEDERAL, IBANEIS ROCHA NÃO TEVE APOIO DA CÚPULA DO MDB, MAS CONTOU COM O PRÓPRIO DINHEIRO PARA SE VENDER COMO O CANDIDATO HONESTO, EMPREENDEDOR E ANTIPOLÍTICO”

Ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Rocha declarou ser dono de 11 imóveis, três terrenos e 17 veículos. Mas, de acordo com dados de cartórios do Distrito Federal, as propriedades registradas nas empresas do então casal superam a casa das três centenas. As planilhas informadas à Justiça Eleitoral revelam também uma paixão por joias, antiguidades e pinturas. Foram declaradas 21 peças que somam R$ 1,042 milhão. O advogado mesmo estima uma defasagem no valor de R$ 94 milhões registrado na Justiça como seu patrimônio. “É que a Receita não corrige os valores dos bens. Eu acho um erro, mas é assim que funciona”, disse, sobre os preços dos imóveis estarem abaixo do valor de mercado.

Neófito na vida pública, Rocha disse ter construído sozinho a candidatura ao Buriti. Desiludido com as opções para as eleições de 2018, procurou dois amigos que trabalham com pesquisas eleitorais e pediu que identificassem o perfil buscado pelos brasilienses. Os dados apontavam para o antipolítico, honesto e trabalhador. Ele era um outsider e sua história de vida se encaixava no perfil.

Com essas informações, encampou o discurso. Filiou-se ao MDB em uma cerimônia esvaziada pela cúpula tradicional da legenda. Nem mesmo o presidente nacional do partido, Romero Jucá, participou. Era um candidato desacreditado, mas tinha algo que faltava à maioria das candidaturas: dinheiro próprio para se financiar.

Rocha pagou, em média, R$ 2.240 a cada um dos 649 puxadores de votos que contratou em 2018. No total, distribuiu R$ 1,45 milhão a pessoas físicas. No comitê de campanha de Rocha, ÉPOCA conversou com Allan Pontes, Ingrid Paloma, Fernando Ferreira e Jadson Nonato. Eles disseram ter recebido R$ 2 mil para pedir votos para o então candidato, mas os nomes deles hoje constam na prestação de contas da candidata a deputada distrital Kadija (MDB-DF), e não na do governador.

“O Comitê da campanha de governador foi utilizado por diversos candidatos da coligação (senadores, deputados federais e distritais) e seus apoiadores (cada um fez campanha para seus candidatos e todos para Ibaneis Rocha)”, informou a assessoria de Rocha. “É bastante possível que naquele momento estivessem presentes pessoas também ligadas a outros candidatos, de cuja forma de contratação não temos conhecimento.”

Cinquenta dias depois de de ter assumido o governo, Ibaneis Rocha comprou um avião executivo modelo turboélice King Air, avaliado em R$ 7,4 milhões. Foto: Acervo pessoal

A fortuna que esbanja em roupas, relógios, casas, carros e até avião começou a ser construída em 1993, quando mantinha hábitos alimentares mais simples, os quais carrega até hoje, como o gosto por buchada de bode e por comidas nordestinas. Foi quando decidiu aceitar o convite de um parente para ajuizar uma ação contra o Plano Real, no intuito de garantir a recomposição da URV. Ele defendeu uma associação de servidores do Ministério Público do Trabalho, relacionada a questões de seguridade social. Com uma petição de 56 páginas, Rocha viajou para São Paulo e fez plantão na antessala de um juiz por uma semana. Na véspera de um feriado, antes de voltar a Brasília, decidiu abordar o magistrado: “Estou aqui aguardando a liminar que o senhor me prometeu.

Para o senhor isso pode não fazer diferença, mas, para mim, é a diferença entre um advogado rico e um advogado pobre”. Obteve liminar favorável e, de quebra, ganhou centenas de clientes, que o procuraram em seu pequeno escritório. Hoje, a luxuosa instalação, em um prédio no Setor de Administração Sul, em Brasília, tem mais de 40 advogados e uma carteira de 80 mil clientes.

O advogado pobre de outrora hoje pensa minuciosamente como combinar o relógio Montblanc prata avaliado em R$ 24 mil com os óculos retangulares de mesma marca e cor. A caneta esferográfica de tinta azul, com formato geométrico e detalhes prateados e azuis também carrega a estrelinha da Montblanc, assim como a fivela do cinto preto de couro. Para Rocha, combinar esses quatro acessórios é um hábito. “Se o relógio for Rolex, as outras peças também serão.” Os apetrechos ajudam a compor o figurino também estrategicamente pensado para o tipo de evento.

“ANTES IGNORADO PELO PARTIDO, IBANEIS ROCHA ACABA DE ACERTAR COM A CÚPULA DO MDB PARA EMPURRAR A ELEIÇÃO DA LEGENDA PARA 5 DE OUTUBRO, UM PASSO IMPORTANTE EM SEUS PLANOS DE SE TORNAR SEU PRÓXIMO PRESIDENTE”

Madrugador, diz acordar às 5h30 para ler os jornais e colocar a leitura de livros em dia. Amante dos restaurantes de Brasília, almoça em seu gabinete, no Buriti. Gosta de uma taça de cerveja Teresópolis para abrir o apetite. Se há motivo para comemorações em meio à refeição, o brinde é feito com uma taça de vinho português, espanhol ou chileno. Ao final, o arremate fica a cargo do digestivo francês Chartreuse amarelo, produzido por monges. À noite, as celebrações se prolongam regadas sobretudo a vinho. Modesto, o governador disse não ligar para rótulos caros e beber “até” chilenos.

Rocha é o primeiro governador com certidão de nascimento expedida no Distrito Federal. Chegou em 10 de julho de 1971, no Hospital de Base de Brasília, onde trabalhavam seu pai e sua mãe: ele como técnico de farmácia e ela como auxiliar de enfermagem.

Aos 8 anos, mudou-se para Corrente, no Piauí. Ainda criança, trabalhou como empacotador de café e açúcar numa feira. Ao perceber que o local não vendia verduras, sugeriu ao pai plantar os insumos. Ali, disse ter aprendido a ganhar e a poupar dinheiro: guardava 50% da renda, que mais tarde usou para pagar o primeiro ano da escola em Brasília. Estudou Direito mesmo a contragosto do pai, que queria o filho médico. Aos 26 anos, de férias no Piauí, conheceu Luzineide Getro e, em menos de dois anos, já estavam casados. Os dois tiveram Caio, de 21 anos, e João Pedro, de 13.

Agora, Rocha e Getro estão prestes a assinar o divórcio, quase três anos após a separação. Ele hoje vive com a advogada Mayara Noronha, de 30 anos, com quem teve Mateus, de 8 meses. O caçula nasceu 15 dias antes de o pai ser empossado governador. Caio estuda Direito e já toca os negócios da fazenda. João Pedro herdou o gosto pelas compras. Por enquanto, nenhum dos dois foi atraído pela política.

Mas disseram se orgulhar da determinação que levou o pai a ser milionário e fazer a mágica de ganhar 630 mil votos em 45 dias. Hoje, o governador antes ignorado pelo próprio partido acaba de acertar com a cúpula do MDB para empurrar a eleição da legenda para 5 de outubro, aniversário da Constituição. A expectativa é que se torne o próximo presidente do MDB — passo inicial para os voos maiores que o novato pretende alçar na política.

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da Redação

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