Apontado como favorito para a PGR, Aras enfrenta resistência da Lava-Jato

Por Thiago Herdy do O Globo

SÃO PAULO — Apontado como favorito ao cargo de procurador-geral da República (PGR) segundo o entorno do presidente Jair Bolsonaro , o subprocurador-geral Augusto Aras enfrenta a oposição dos integrantes das forças-tarefas da Operação Lava-Jato. A ampliação da movimentação de Aras nas últimas semanas, reforçada por encontros com o presidente e aliados do PSL , acendeu um alerta entre procuradores, que temem a descontinuidade das ações e da independência funcional da Lava-Jato sob sua eventual gestão.

Em contato com representantes do governo, os procuradores reforçaram nos últimos dias a defesa do respeito à lista tríplice da Associação Nacional de Procuradores da República (ANPR), votação da qual Aras se recusou a participar e que resultou na escolha de três nomes de preferência da categoria: Mário Bonsaglia, Luiza Frischeisen e Blal Dalloul.

A preocupação com o futuro da Lava-Jato foi levada ao ministro da Justiça, Sergio Moro, que também encampa a escolha para o comando da PGR a partir da lista tríplice. O ministro, no entanto, vem deixando de ser interlocutor de peso no governo em função do desgaste que sofreu após a divulgação de conversas atribuídas a ele e a integrantes do MPF, no período em que Moro era juiz da Lava-Jato em Curitiba.

Um dos principais entusiastas da campanha pró-Aras é o publicitário baiano e conterrâneo Fernando Barros, dono da Propeg, empresa que tem contratos com as principais estatais do país. A Propeg é citada pelo marqueteiro Renato Pereira, delator da Lava-Jato, como uma das intermediárias de um repasse via caixa dois de R$ 5 milhões da construtora Andrade Gutierrez para a campanha de Luiz Fernando Pezão ao governo do Rio de Janeiro, em 2014. Pereira também relatou ter direcionado à Propeg contratos de publicidade da prefeitura do Rio. A empresa de publicidade nega as acusações. O episódio é investigado no âmbito da Lava-Jato no Rio.

Em defesa da lista tríplice

Em nota pública distribuída após o resultado da votação da lista tríplice ser divulgado, procuradores das forças-tarefa das operações Lava-Jato, Greenfield e Zelotes defenderam a escolha de um dos nomes eleitos pela categoria. “Os três nomes que compõem a lista tríplice foram escolhidos pelos membros do MPF em processo democrático e transparente, que contou com a presença de 82,5% da categoria. A indicação de qualquer um dos três pelo presidente da República é o melhor caminho para a construção de um MPF fortalecido, a serviço do interesse público”, escreveram os procuradores na ocasião.

Em abril deste ano, o procurador aposentado Carlos Fernando dos Santos Lima, símbolo da Lava-Jato, foi o primeiro a se manifestar contra a candidatura de Aras, criticando o fato de o subprocurador conciliar o cargo com o exercício da advocacia. A medida foi uma reação a críticas públicas de Aras à independência funcional da Lava-Jato. Para o subprocurador, a força-tarefa teria contrariado a unidade e a indivisibilidade institucional do Ministério Público e, por isso, seria necessário encontrar uma maneira de manter “a casa dentro dos limites” em uma eventual nova gestão.

Ao ser questionado na terça-feira sobre o que tem feito para reverter a oposição da Lava-Jato à sua candidatura, Aras mudou o tom do discurso. Em nota, informou que “apoia e sempre apoiou a Lava-Jato” e que a “considera um avanço civilizatório para o Brasil”. No mesmo texto, defendeu a adoção do padrão Lava-Jato em todas as atividades do MP, “por reconhecer na operação um exemplo de eficiência no combate à corrupção que responde à necessidade de mudança no país”. Aras caiu no gosto do bolsonarismo quando passou a fazer críticas públicas ao que chama de “posições radicalizadas e ideologizadas” do MPF sobre meio ambiente e cultura indígena.

Ajude-nos a continuar nosso trabalho independente. Você jamais será livre, sem uma imprensa livre. Contribua.

da Redação

Comentários