Recessão e asfixia das classes média e média baixa explicam em grande medida derrota de Macri

Por Janaína Figueiredo do O Globo

RIO — A surra eleitoral sofrida pelo presidente da Argentina, Mauricio Macri , nas Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias (Paso) de domingo instalou no país uma pergunta que não quer calar: o que provocou tamanho desastre? A resposta não é simples, e alguns analistas chegaram a atribuir a derrota à soberba de Macri e seus ministros. O buraco é bem mais embaixo e tem a ver com uma situação econômica gravíssima e que tornou a vida da classe média e média baixa um verdadeiro pesadelo.

Essa classe média, sobretudo a baixa, ajudou Macri a se eleger em 2015. Naquele ano, no segundo turno o presidente ficou com votos até mesmo de peronistas que na etapa anterior apoiaram o então candidato presidencial Sergio Massa, hoje figura de proa da Frente de Todos de Alberto Fernández e Cristina Kirchner . Graças a esses votos, Macri alcançou 51,34%, contra 48,66% do então candidato kirchnerista Daniel Scioli.

O desafio era manter esses eleitores em sua base de apoio. Mas como fazer isso num país que vive às voltas com 40% de inflação anual e no qual nos primeiros quatro anos de 2019 fecharam mais de 5 mil fábricas (43 por dia)? Entre maio deste ano e o mesmo mês de 2018 foram perdidos 217 mil empregos.

— O resultado de domingo se explica por dois elementos centrais: a união do peronismo e a perda de respaldo do governo nos setores de classe média e média baixa — afirmou Diego Reynoso, professor e pesquisador da Universidade de San Andrés.

Nos últimos três anos e meio, Macri repetiu até o cansaço que era necessário fazer um esforço e que sem esse esforço o país não sairia do atoleiro em que estava metido. E assim os argentinos suportaram aumentos tarifários de até 800% que, somados a uma das inflações mais altas do mundo e à recessão generalizada (este ano o PIB argentino deve recuar entre 1,5% e 2%), asfixiaram os setores médios, médios baixos e pobres.

Em palavras do analista Carlos Fara, "Macri acreditou que pondo um cartaz que dissesse 'estamos trabalhando por uma cidade melhor, desculpe o transtorno' a maioria da sociedade compreenderia".

A maioria, no entanto, não compreendeu, e o discurso do medo da volta "do populismo" como principal estratégia se Macri contra a chapa integrada por Alberto Fernández e a senadora e ex-presidente Cristina Kirchner (2007-2015) não funcionou.

— Até 2015, tínhamos um dos salários mais altos da região, hoje estamos em quarto ou quinto lugar. A população perdeu muito poder aquisitivo e não perdoou — concordou Julio Burdman, da Universidade Nacional de Buenos Aires.

O mapa eleitoral é contundente: o macrismo perdeu em quatro das cinco províncias que governa, ganhando apenas em Córdoba e na cidade de Buenos Aires. Mendoza, Buenos Aires (a província), Jujuy e Neuquén optaram pela união de kirchneristas e peronistas. Reverter este cenário em apenas dois meses e com a economia em frangalhos parece impossível.

As primárias de domingo funcionaram como uma megapesquisa das eleições presidenciais de 27 de outubro. Como não havia disputa interna nos partidos, o importante era saber qual a proporção de eleitores que votaria em cada chapa. Com 99,37% das urnas apuradas, Alberto Fernández , que tem a ex-presidente e senadora Cristina Kirchner como vice, teve 47,66% dos votos. Macri , candidato à reeleição e que tem o apoio declarado de Bolsonaro, recebeu 32,08% dos votos, uma diferença de menos 15 pontos percentuais.

Na Argentina, para vencer no primeiro turno é necessário ter 45% dos votos ou 40% com uma diferença de ao menos 10 pontos sobre o segundo colocado.

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da Redação

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