Com declarações diárias ao sair do Alvorada, Bolsonaro dirige a própria imagem para ser 'autêntico'

Por Jussara Soares e Daniel Gullino do O Globo

BRASÍLIA - Sete meses após chegar ao Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro assumiu o controle total da comunicação do governo e tomou para si o papel de decidir os rumos da narrativa da sua gestão.

Em conversas reservadas, alguns dos seus principais auxiliares admitem que, além da espontaneidade que agrada o eleitor fiel, Bolsonaro utiliza uma boa dose de cálculo político que o mantém como protagonista, pautando o noticiário e sendo matéria-prima de piadas na internet. Para o bem ou para o mal, ele segue o assunto principal e, ao mesmo tempo, evita que coadjuvantes, como o vice-presidente, Hamilton Mourão, e ministros que comandam algumas das principais pastas roubem-lhe a cena.

O mais recente exemplo foi a decisão do presidente de fazer declarações diárias pela manhã a repórteres na saída do Palácio da Alvorada. Em conversas que chegam a 30 minutos, Bolsonaro começa o dia respondendo a perguntas da imprensa, mas aproveitando o espaço para transmitir seus recados pelas emissoras de TV e pelos sites de jornais. Tudo também é gravado por seus assessores e, ao longo do dia, vira conteúdo para suas redes sociais.

A assessores, o presidente admite que suas declarações, mesmo as mais polêmicas, repercutem menos negativamente do que quando fica em silêncio, o que era mais comum no início do governo. Agora, mesmo tendo a imprensa como um dos seus alvos principais, faz questão de dar entrevista.

— Vocês nunca tiveram um presidente que conversou tanto com vocês — disse a repórteres, no último sábado.

Frequentemente, ao encerrar as coletivas, ele diz que “está cada vez mais apaixonado” pelos repórteres, a quem também chama de “urubus”.

Para ser diferente

Quando dá vazão a ímpetos aventureiros e escapa da agenda oficial, arrastando a imprensa na sua cola, Bolsonaro sabe que reforça a imagem de ser “autêntico” e “verdadeiro”, fundamentais para a narrativa de que se trata de um político diferente de seus adversários, avalia um auxiliar.

O presidente deixou o Palácio da Alvorada ontem e foi até o Clube da Aeronáutica, onde pegou uma moto. De lá, foi até o Lago Sul e andou de jet-ski. Ainda de moto, foi até a Torre de TV, onde funciona uma feira de artesanato, e tomou caldo de cana.

— Minha vida (sempre) foi essa. Tenho saudades. Foi muito gratificante, excelente. Estou com as baterias recarregadas — disse, após o passeio.

Na Páscoa, Bolsonaro já havia surpreendido jornalistas e um grupo de populares que tentava vê-lo ao chegar dirigindo uma moto no Forte dos Andradas, no Guarujá, litoral paulista, onde passou o feriado.

Em viagem a Aragarças (GO), em junho, quebrou o protocolo e pilotou um jet-ski no Rio Araguaia. No mesmo mês, num sábado, fez um tour pelos clubes de Brasília e comprou xampu em um supermercado localizado a cerca de 12 quilômetros do Palácio da Alvorada. As decisões costumam dar trabalho também aos responsáveis pela segurança presidencial.

Um integrante do primeiro escalão do governo observa que Bolsonaro, depois de “declarações infelizes” e de ter a comunicação como fonte constante de crises no início da gestão, encontrou um método de “ser o Jair que sempre foi, com espontaneidade e simpatia” dos tempos de deputado do baixo clero. Na época em que era parlamentar, Bolsonaro já gostava de aparecer, e cabia ao ex-assessor Waldir Ferraz a tarefa de disparar notas, mesmo negativas, com o intuito de manter o chefe em evidência. Segundo um atual auxiliar, Bolsonaro “é o grande comunicador do governo” e gosta desse papel.

O presidente, aliás, teria convencido o filho Carlos Bolsonaro, vereador do Rio e apontado pelo pai como responsável por sua eleição, a diminuir postagens no Twitter que levem polêmicas para seu governo.

Nessa área, nem o Secretário de Comunicação, Fábio Wajngarten, nem o porta-voz, Otávio do Rêgo Barros, têm de fato qualquer ingerência na forma como o chefe do Executivo administra suas redes sociais ou se relaciona com a imprensa. A falta de uma estratégia de comunicação profissional, aliás, é considerada um foco de crise no governo. Entretanto, Bolsonaro tem deixado claro que ele não dá espaço para ser tutelado nesta questão.

No início de agosto, por exemplo, Bolsonaro esteve em Anápolis (GO) para assinar a concessão de um trecho da Ferrovia Norte-Sul. Após o evento, ao perceber que os repórteres estavam interessados em outros temas, interrompeu a coletiva de imprensa.

— O repórter agora sou eu — disse, colocando os ministros Tarcísio de Freitas (Infraestrutura) e Tereza Cristina (Agricultura), além do governador Ronaldo Caiado (DEM), para dar declarações. — Vocês podem não usar, mas eu coloco nas minhas redes sociais — disse Bolsonaro, que orientava seu assessor sobre como deveria gravar a coletiva com o celular enquanto os demais falavam.

Ajude-nos a continuar nosso trabalho independente. Você jamais será livre, sem uma imprensa livre. Contribua.

da Redação

Comentários