Primárias argentinas deste domingo são primeiro teste eleitoral para Macri e Cristina

Por Janaína Figueiredo do O Globo

Com a economia ainda mergulhada numa grave recessão e num clima de forte irritação social, o presidente da Argentina, Mauricio Macri, apostou na estratégia do medo para enfrentar o kirchnerismo aliado a grande parte do peronismo nas próximas eleições presidenciais.

Medo de um retorno da senadora e ex-presidente Cristina Kirchner (2007-2015) ao poder, como vice de seu companheiro de chapa, o candidato presidencial Alberto Fernández. Neste domingo, o resultado das Primárias Abertas Simultâneas e Obrigatórias (Paso), teste eleitoral prévio ao primeiro turno, mostrará se a jogada funcionou e, portanto, se Macri tem chances de ser reeleito no próximo dia 27 de outubro.

O chefe de Estado tem apelado a tudo, até mesmo às lágrimas. No encerramento de campanha, Macri chorou e reconheceu que “vocês não podem imaginar como fico triste ao ver que tem argentino passado sufoco”. Já Cristina passou as últimas semanas afirmando querer “uma Argentina na qual as pessoas voltem a ser felizes”.

O país vive uma queda de braço entre a rejeição à ex-presidente e a decepção com seu sucessor. O desfecho desta disputa é incerto, apontaram analistas locais ouvidos pelo GLOBO. Está claro que Fernández está na liderança, embora ainda não tenha conseguido convencer muitos argentinos de que, em caso de vitória, não será uma marionete de sua ex-chefe, com quem prometeu nunca mais brigar (nos últimos anos, o candidato fez duras críticas à senadora).

Três pesquisas recentes mostraram uma vantagem entre quatro e sete pontos percentuais a favor do candidato da nova Frente de Todos, que reúne o kirchnerismo e um setor majoritário do peronismo. O governo diz ter outras nas quais Macri é favorito. Existem, ainda, dois candidatos cujos votos serão essenciais num eventual segundo turno: o ex-ministro da Economia Roberto Lavagna, que tem em torno de 8%, e o também economista José Luis Espert, revelação política do ano, que varia entre 3% e 6%.

As Paso perderam total sentido nos últimos anos, já que os candidatos não têm rivais dentro de seus partidos, e o resultado acaba virando uma pesquisa que é usada por todos para fazer ajustes na reta final para o primeiro turno. No caso de Macri, por exemplo, se houver uma vantagem grande a favor de Fernández, será necessário reforçar a mensagem do medo de Cristina.

Já o candidato da Frente de Todos poderá avaliar se é necessário distanciar-se da senadora para conquistar votos dos que duvidam de sua independência. Um primeiro gesto neste sentido será feito amanhã. Cristina, processada por corrupção e que teve até mesmo sua prisão ordenada e não executada por sua imunidade parlamentar, ficará na província patagônica de Santa Cruz e não estará ao lado de Fernández na capital.

— Fernández ficará pelo menos cinco pontos percentuais acima de Macri. Poderiam ser dez e, nesse caso, não podemos descartar sua eleição no primeiro turno — disse o analista Hugo Haime.

Opção pelo centro

Para vencer no primeiro turno, um candidato argentino precisa obter 45% dos votos ou 40%, com pelo menos dez pontos de vantagem. Hoje, parece um cenário inalcançável para os dois principais rivais nas presidenciais. Mas a política argentina é vertiginosa e nenhum analista descarta esta possibilidade, principalmente no caso de Fernández.

— Nos últimos dois meses, houve uma onda favorável a Macri. O desafio é que a participação (que não é obrigatória) seja elevada e que os mercados leiam o resultado sem dramaticidade — disse Carlos Fara, da Fara e Associados.

Essa onda favorável à qual Fara se refere e que outros analistas também mencionaram foi possível graças à estabilização do dólar (cotado em 46,50 pesos) e à desaceleração da inflação. A economia não melhorou, mas também não piorou. Na visão de Diego Reynoso, professor e pesquisador da Universidade de San Andrés, “a campanha do medo de Macri também ajudou, mas o presidente ainda está em desvantagem”.

— Em 2015, Macri ganhou por 700 mil votos no segundo turno. Desta vez, a polarização é maior e, se houver segundo turno, a briga será ainda mais acirrada — prevê Reynoso.

Tanto o presidente quanto Cristina fizeram uma clara opção pelo centro: a senadora cedendo a candidatura presidencial a um peronista moderado, e Macri escolhendo o senador peronista Miguel Angel Pichetto como candidato a vice. Mas, na Argentina de hoje, ninguém se atreve a cravar qual dos dois terminará vencendo.

Brasília aposta em Macri

O governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) acompanha de perto cada movimento eleitoral argentino, aposta que Macri consiga passar para um eventual segundo turno e, com parte dos votos de Lavagna e Espert, impeça o retorno do kirchnerismo. Agências de risco brasileiras também acreditam que este é o cenário mais provável.

— Ainda vemos reeleição do Macri no segundo turno, por pouco, mas ainda ganha — apontou Caio Torres, da Control Risks.

Ele concorda com a visão de uma guinada ao centro de ambos os candidatos:

— Macri tentou fugir do perfil de liberal e populista de Cristina.

Para o presidente, a escolha de Pichetto permitiu derrubar as acusações de que seu governo é antiperonista. Mas todos os governadores peronistas, com exceção de Juan Carlos Schiaretti, de Córdoba, estão com Alberto e Cristina. Como asseguraram todos os analistas consultados, o futuro de Macri dependerá, em grande medida, dos erros que poderão cometer seus adversários e de sua capacidade de consolidar o sentimento de temor à mulher mais poderosa da política argentina.

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da Redação

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