Operação da PF em sete estados mira 'tesouraria' de facção criminosa

Por Aline Ribeiro do O Globo

SÃO PAULO — A Polícia Federal deflagrou, na manhã desta terça-feira, uma operação para desarticular um dos braços financeiros da organização criminosa paulista que controla a venda de drogas e armas de dentro dos presídios . A investigação, em curso desde fevereiro, teve acesso a planilhas contábeis da facção e descobriu depósitos mensais entre R$ 800 mil e R$ 1 milhão em 418 contas bancárias. O dinheiro era usado pelo bando para financiar crimes e manter sua rede funcionando em todo o território brasileiro – desde o pagamento de auxílio funeral de um integrante ao custeio de hospedagem de familiares em visitas a presídios.

— Esse dinheiro diz respeito ao que a organização gasta para sustentar sua estrutura de rede montada em volta da cadeia. É relevante, porque eles atuavam em todo o Brasil. Mas (a operação) acabou com o dinheiro? Não. É justamente com esse trabalho contínuo, buscando as lideranças e onde o dinheiro está, que vamos deixá-los sem condições de atuar. Sem dinheiro, o crime não sobrevive – disse Martin Bottaro Purper, delegado da Polícia Federal que coordenou a operação.

Em coletiva de imprensa depois da operação, Purper explicou que parte do dinheiro da facção é arrecadado dos próprios membros, em rifas vendidas a cada dois meses e em mensalidades. Esse montante recolhido no que ele chamou de “base da pirâmide” vai para as lideranças, os principais beneficiados pelo dinheiro.

— Às vezes, a base recebe algumas migalhas (do dinheiro) para a prática de alguns delitos. Mas a maior parte mesmo é administrada em prol dos líderes, de quem está no topo da pirâmide — afirmou.

Segundo Purper, integrantes com cargos de chefia usavam contas bancárias em nome de outros membros, e de forma alternada, para movimentar esses recursos de modo a dificultar a fiscalização pelos próprios bancos e pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Os criminosos também usavam um código diferente para nomear cada conta, de modo a impedir que fosse identificada em interceptações telefônicas e bloqueadas. Ao final das transações, um membro do grupo ficava responsável pelo fechamento da contabilidade. Se faltava dinheiro, alguém era punido.

— As pessoas que devem ou pagam ou são excluídas ou espancadas. Há casos de devedores que pagam com a prática de crimes, como aconteceu nos assassinatos de agentes penitenciários federais de Cascavel – disse Purper.

Núcleo financeiro

A informação sobre a existência de uma espécie de núcleo financeiro da facção estabelecido na Penitenciária Estadual de Piraquara, no Paraná, deu início às investigações. Esses três presos, segundo os investigadores, seriam responsáveis por recolher e gerenciar as contribuições para a facção em âmbito nacional.

Batizada de Cravada, a operação tinha como meta o cumprimento de 55 mandados de busca e apreensão e 30 mandados de prisão em cidades do Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Acre, Roraima, Pernambuco e Minas Gerais. Oito dos mandados tinham como alvos líderes da facção que já são detentos.

Até o final da tarde desta terça-feira, a PF havia cumprido 26 mandados de prisão e todos os de busca e apreensão, além de ter efetuado duas prisões em flagrante. Durante as buscas, foram apreendidos celulares, papeis de contabilidade, pequenas quantidades de drogas, pen-drives e um HD.

Transferências

De acordo com a PF, 13 presos, identificados como líderes do esquema, serão transferidos a presídios federais. Esses detentos deverão, ao menos temporariamente, ter suas visitas suspensas, para que não se comuniquem com o mundo externo.

Os investigados devem responder pelos crimes de tráfico de entorpecentes, associação para o tráfico, organização criminosa, entre outros.

O nome da operação faz referência a uma jogada de xadrez em que uma peça ameaçada pelo adversário fica impossibilitada de se mover porque há uma peça de maior valor em risco.

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da Redação

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