'Aquecimento global não é minha praia', diz novo diretor do Inpe

Por Leandro Prazeres do O Globo

BRASÍLIA — O diretor interino do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais ( Inpe ), o oficial da Aeronáutica Darcton Policarpo Damião , não está convencido de que o aquecimento global causado pela ação humana é um fato comprovado.

Em entrevista ao GLOBO um dia após o anúncio de que ocuparia o cargo, o professor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) afirmou que o assunto “não é a sua praia”. E que, do que leu até agora sobre o tema, não chegou a uma conclusão sobre o fenômeno.

Damião chegou à direção do Inpe após uma crise criada pelo presidenteJair Bolsonaro (PSL) no mês passado, quando ele criticou a atuação do órgão por divulgar dados sobre o aumento dos alertas de desmatamentona Amazônia. Em entrevista a correspondentes estrangeiros, Bolsonaro chegou a dizer que tinha a impressão de que o Inpe estaria a serviço de “alguma ONG” .

Na sexta-feira passada, o cientista Ricardo Galvão foi exonerado da direção do Inpe e, na segunda-feira, o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, anunciou Darcton Damião como diretor interino. Ele deverá comandar o cargo até que seja elaborada uma lista tríplice, de onde deverá sair o diretor definitivo do órgão.

Damião garantiu também que, sob sua gestão, o Inpe seguirá divulgando informações sobre desmatamento na Amazônia, com uma ressalva: "em situações alarmantes", a Presidência e os ministérios do Meio Ambiente e da Ciência e Tecnologia receberão os informes em primeira mão.

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Qual será a linha mestra da sua gestão no Inpe?

A ideia é melhorar a comunicação entre o Ministério de Ciência e Tecnologia e os seus clientes, notadamente o Ministério do Meio Ambiente, o da Agricultura, o Itamaraty e o Planalto. Quando a gente trata de desmatamento, clima e meio ambiente global, não é uma questão simplesmente nacional. Envolve o concerto das nações e a Presidência. Porque são eles que vão ter que responder às pressões lá fora.

Isso quer dizer que será modificada a divulgação dos dados do Deter (Sistema de Detecção do Desmatamento na Amazônia Legal em Tempo Real)?

Não há qualquer receio em relação à transparência dos dados. O Inpe não cria história. Ele conta a história. Há determinadas situações que precisam ser verificadas. Vou usar como exemplo o sistema de água de uma cidade. Se alguma coisa muito ruim for acontecer com a água da cidade, em vez de ir pro jornal, em primeiro lugar você vai falar com o prefeito. Entendeu o exemplo? Você (tomador de decisão) precisa saber disso antes. Não precisa saber disso pelo jornal. Eu não estou dizendo que o jornal não deva dar a notícia. Pelo contrário. Ele deve dar a notícia. Mas a administração da cidade tem que cuidar daquilo que implica além da água e a responsabilidade seria do prefeito. Isso não muda o fato de que os dados estão ali.

O senhor, então, concorda com o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, quando ele afirma que, sobre os alertas de desmatamento, há situações que poderiam ser tratadas internamente?

Não posso opinar sobre algo que o general Heleno disse. Posso falar sobre o que se espera de mim, um alinhamento e uma comunicação mais fluida com as instituições que demandam dados do Inpe.

O Inpe continuará produzindo informações a partir do Deter, divulgando balanços mensais e colocando esses dados à disposição da sociedade?

Não vejo nenhuma razão para crer que ele vai deixar de existir. O Deter é diferente do Prodes (sistema de monitoramento da Amazônia que produz dados sobre o desmatamento de forma anual). A questão é não usar "chave Phillips" onde o que se tem é uma chave de fenda. Cada ferramenta no seu lugar.

O governo anunciou uma licitação para contratar monitoramento com imagens de maior resolução. É de fato necessário?

Tudo depende. Depende de qual é a finalidade.

Mas o sistema de que dispomos hoje não é suficiente e eficiente para o trabalho que ele precisa fazer?

O sistema de hoje é muito melhor que o de 20 anos atrás. E o que teremos em 20 anos será muito melhor que o que temos hoje. Uma imagem é uma representação da floresta. Nunca vamos ter a floresta refletida na escala 1 para 1. Agora, o que precisamos é o que nós temos. Não temos condições de querer mais porque já estamos trabalhando com o "estado da arte".

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Então, hoje, o que temos é o que poderia ser chamado de “estado da arte” em monitoramento de florestas via satélite?

Afirmativo.

O senhor acredita que o planeta sofre com o aquecimento global, causado pela ação humana?

Não sou estudioso de temas globais. Sou um interessado. Existem várias opiniões contra e a favor. Leio e estudo. Não adianta emitir a minha opinião sobre isso. Seria o mesmo que emitir uma opinião sobre futebol no Brasil. Adoro futebol, mas não sou bom de bola, nunca joguei, e dizer que é melhor ou pior com o Neymar, para mim, vai cair no vazio. Minha opinião não terá valor. Estudo o assunto, mas (aquecimento global) não é a minha praia. Não sou autoridade no assunto.

Mas o senhor faz parte da comunidade acadêmica brasileira e vai dirigir um dos principais institutos de pesquisa do país...

Sim. E agora esse assunto vai estar na minha pauta. Vou ter que ouvir diferentes pessoas sobre o tema, mas, até hoje, só li sobre o tema como interessado e curioso que sou.

E do que o senhor leu até agora, isso lhe permitiu chegar a qual conclusão?

Do que li, não me permite emitir uma opinião sobre se é de um lado ou de outro.

Então o senhor não tem opinião formada sobre se o planeta vive um processo de aquecimento global causado pela ação humana?

Cheguei aqui no meu destino. Vou ter que encerrar...

Mas o senhor acha que existe, como o presidente Jair Bolsonaro mencionou, uma psicose ambiental no exterior em relação ao Brasil?

Não vou dizer psicose. Existe o que em inglês se chama de “awareness”. Um estado de alerta. Isso ficou cada vez maior na medida em que o mundo foi ficando mais complexo e as sociedades mais interligadas e que as pessoas entendem que o clima é global. De que não existem fronteiras para isso. Então, o nível de informação aumentou, e isso gera expectativa nas outras nações. Existe um nível de alerta mais alto.

E o senhor acha que esse nível de alerta mais alto é justificável?

Não vou dizer se é justificável porque há vários pontos nesse espectro, mas certamente é natural. Essa é uma realidade e temos que lidar com ela. O Brasil, a Alemanha, a Índia, a China... todos temos que nos dar conta de que isso é uma realidade atual e que só vai recrudescer. Não adianta fingir que não tem um elefante na sala.

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da Redação

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