Roubo de ouro em SP reforça cobrança por segurança em aeroportos

Por Henrique Gomes Batista do O Globo

SÃO PAULO - O cinematográfico roubo de 718,9 quilos de ouro do Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP), no dia 25, deu nova ênfase a uma demanda do setor por mais segurança na área de cargas. O tema será um dos principais da reunião sobre a revisão do Programa Nacional de Segurança da Aviação Civil Contra Atos de Interferência Ilícita (PNAVSEC), em setembro.

— Já cumprimos as normas da Organização da Aviação Civil Internacional (Oaci), mas isso não é suficiente. Temos que ir além. Um bom exemplo do que podemos copiar são as regras de segurança americana, criadas para coibir o terrorismo. Mas aqui teremos que usar isso para coibir os roubos — disse um interlocutor do governo federal, que pediu sigilo.

Uma das questões debatidas após o assalto de R$ 110 milhões, realizados em dois minutos e meio e sem o disparo de um tiro sequer, foi o livre acesso que alguns agentes públicos têm de áreas restritas nos aeroportos. Aproveitando isso, os criminosos clonaram viaturas da Polícia Federal (PF) e usaram fardas falsas.

Alguns especialistas defendem controles rígidos e até fiscalização aleatória dos agentes lotados em aeroportos. Mas agentes de segurança e do fisco são contrários a novos controles. Interlocutores da PF argumentam que ela é a responsável final pela segurança dos aeroportos e que, assim, não faz sentido, “fiscalizar a si mesma”.

Já alguns agentes da Receita Federal dizem que burocratizar o acesso dos auditores pode tomar preciosos minutos, fundamentais para impedir sonegação ou contrabando. PF e Receita não responderam a pedidos de entrevista.

Em busca de falhas

Muitos acreditam que o assalto ocorreu por negligência da operadora do aeroporto, a GRU Airport. A concessionária nega irregularidades, diz que cumpre as normas de segurança e está colaborando com as investigações.

— Ao que tudo indica, ninguém estava olhando as câmaras de segurança da área, pois não foram acionados agentes de segurança durante o assalto —afirmou o advogado Marcelo Nogueira, professor da Universidade Veiga de Almeida.

Uma resolução da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que entrará em vigor no dia 6 de novembro, estabelece controle mais efetivo, com biometria, de agentes públicos em áreas restritas, como a do raio-x. Mas não há medidas para o setor de cargas.

Nenhum dos responsáveis pela revisão do plano conduzido pela Comissão Nacional das Autoridades Aeroportuárias (Conaero) defende segurança armada na área de cargas dos aeroportos. Isso porque armas em local restrito podem ampliar o risco de atos terroristas e até da segurança da operação, em local com muito material inflamável.

— Temos que ampliar o controle dos agentes de áreas restritas, com biometria, antecedentes criminais e sociais. Também são necessários sensores de rastreabilidade, que alertam quando agentes públicos estão fora de suas funções. Grandes aeroportos têm 10 mil pessoas com acesso a áreas restritas — afirmou Rogério Benevides, consultor de segurança da Associação das Empresas Aéreas (Anear) e ex-diretor da Anac.

A Associação Brasileira de Transportes de Valor (ABTV) afirmou que, desde 2016, já foram registrados dez assaltos ou tentativas em aeroportos brasileiros. O presidente da entidade, Ruben Schechter, afirmou que o setor tem evoluído e que, por isso, houve uma redução de assaltos a carros fortes. Para ele, é a hora dos aeroportos também reverem suas práticas:

— O assalto ocorreu quando a mercadoria já estava no aeroporto, não durante o trajeto — disse ele.

Na noite de sexta-feira, a Polícia Civil prendeu em Praia Grande (SP) o quarto suspeito de participar do roubo do ouro. O nome do preso não foi divulgado. Ele é conhecido pelo apelido de “Capim” e tem antecedentes criminais por roubo a banco e tráfico de drogas.

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da Redação

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