Em nova rotina, Joesley está 'recluso' em casa, evita restaurantes e bebidas alcoólicas

Por Thiago Herdy do O Globo

SÃO PAULO - Ancorado na beira do rio em Santo André, vilarejo que pertence a Santa Cruz de Cabrália, no litoral sul da Bahia, o restaurante Gaivota sempre foi conhecido pela moqueca, pelos petiscos de frutos do mar e pela tranquilidade. Há duas semanas, parte disso mudou quando recebeu a visita do empresário Joesley Batista, dono do conglomerado de empresas J&F e principal protagonista da colaboração premiada que abalou o governo Temer.

Acompanhado da família, Joesley foi hostilizado e teve de deixar o restaurante em meio a xingamentos de frequentadores, como “ladrão” e “safado”. Era para ser uma viagem de descanso com o filho recém-nascido à Bahia, terra da esposa Ticiana Villas Boas.

É para evitar episódios como este que Joesley não frequenta restaurantes em São Paulo, cidade onde vive. Na maior parte do tempo, segue recluso em sua luxuosa casa na região dos Jardins, vestindo tornozeleira eletrônica e proibido, assim com o irmão Wesley Batista, de participar da gestão das empresas do grupo J&F. Ele não pode interferir, por exemplo, na bilionária disputa judicial com a Papper Excellence, do indonésio Jackson Widjaya, pelo controle da Eldorado Celulose.

Sobrinhos no poder

Adversários dizem haver razões para desconfiar do respeito de Joesley à restrição. Um dos motivos seria a pouca idade do seu sobrinho Aguinaldo Ramos, atual presidente da Eldorado Celulose. O mesmo argumento é usado no caso de um outro sobrinho, Wesley Jr., que ocupa o segundo cargo mais importante da JBS, a maior produtora de proteína animal do mundo. Ambos têm menos de 30 anos.

De outro lado, aliados rechaçam o descumprimento da restrição e adiantam o que é um pleito dos irmãos, no âmbito da Justiça: voltar a trabalhar em empresas do grupo que estiveram fora das investigações. Dizem que apenas dessa forma será possível garantir o cumprimento do acordo com o Ministério Público Federal (MPF), que prevê o pagamento de uma multa de R$ 10,3 bilhões em 25 anos.

Joesley espera o julgamento do plenário do Supremo Tribuna Federal (STF) sobre a validade de seu acordo, previsto para ocorrer até o fim do ano. A inclusão na pauta está nas mãos do presidente da Corte, Dias Toffoli. O principal ponto sob avaliação é o papel desempenhado pelo ex-procurador federal Marcelo Miller, suspeito de atuar na equipe de acusação e de orientar o empresário.

As três hipóteses na mesa são: a manutenção do acordo como está; o reconhecimento de descumprimento parcial (o que resultaria em repactuação de leniência e incremento de multas); e sua rescisão completa.

Embora boa parte dos envolvidos aposte na segunda opção, o relator do caso, ministro Edson Fachin, não deu sinais do caminho a adotar. Para a defesa, em caso de rescisão as provas levadas aos autos não poderão ser usadas pelo MPF. Procuradores pensam diferente: creem no cancelamento de benefícios, mas não aceitam o descarte das provas.

Em paralelo a esse debate, Joesley segue a rotina de depoimentos em processos judiciais espalhados pelo país e também para equipes de investigação interna da J&F, no contexto dos mais de 200 procedimentos que tratam de sua conduta. Apesar de numerosos, a maioria segue em marcha lenta.

Passados mais de dois anos desde a delação, o empresário e seu entorno dizem seguir colecionando ameaças. Episódios levados no início do ano ao conhecimento das autoridades — como ligações para funcionários e até uma tentativa de invasão à sua casa — seguem com investigações inconclusivas. A presença de seguranças em sua rotina é ostensiva. Joesley não quis dar entrevista.

Exímio bom de copo no passado, deixou de beber álcool há mais de um ano, segundo o relato de amigos. Toma remédios controlados para dormir. Mantém características que sempre o marcaram — como a atenção aos detalhes, alguma serenidade e o sangue-frio. Nas entrelinhas, deixa claro que a opção pela colaboração nunca foi moral, mas uma escolha estratégia no contexto do xadrez da agenda política (e policial) em 2017. Não tem interlocução com o novo governo, mas aprova a agenda liberal do ministro Paulo Guedes (Economia).

No início deste ano, a revista “Forbes” estimou em R$ 4,9 bilhões as fortunas de cada um dos dois irmãos Batista. Hoje, uma das atividades que mais animam Joesley é administrar o Instituto Germinare — Escola de Negócios. Habilitada há dez anos pelo MEC a oferecer aulas do 6º ano do ensino fundamental à 3ª série do ensino médio e objeto de investimentos de mais de R$ 100 milhões, a unidade funciona próxima à sede da JBS, na zona norte de São Paulo. Além de aulas tradicionais, há disciplinas como raciocínio lógico, pensamento crítico, tomada de decisão, solução de problemas, administração de empresas, finanças, marketing e varejo.

Ao final do curso, alunos têm como tarefa colocar conhecimentos em prática na administração de lojas de carnes Swift, em São Paulo. Na escola, Joesley participa de tudo, da seleção de professores à escolha do mobiliário das salas de aula.

Recém-saído do forno, o código de conduta para pais e estudantes da escola traz as digitais e o jeito pouco usual do empresário. Logo na primeira página estão os valores “nos quais não acreditamos”. São eles: “arrogância, pessoas que não respeitam as outras, salvador da pátria, burocracia, soluções milagrosas, egoísmo, deslealdade, gente que acha que sabe tudo, vaidade, coisas complexas, fofocas”.

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da Redação

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