Opinião: Bolsonaro em Guerra com a Ciência. E o mundo, em quem vai acreditar?, por Melillo Dinis

Por Melillo Dinis analista político do Site Inteligência Política

Na tarde de sexta-feira (2/08) o presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe), Ricardo Galvão, foi exonerado de seu cargo. Embora seu mandato se encerrasse apenas no ano que vem, Galvão deixa o órgão por assumidamente contrariar a visão do presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL) sobre o crescimento do desmatamento no último ano.

Bolsonaro não gosta de dados estatísticos. Num conceito bastante difundido de autoverdade, ele trabalha apenas com números simpáticos a sua visão de mundo. No que diz respeito ao Inpe, o presidente acredita piamente que o local é um antro de esquerdistas e que quem aponta a derrubada de árvores no fundo quer dinamitar o seu governo.

É uma suposição estranha, tendo em vista que a checagem desses fatos são perfeitamente possíveis. Se a árvore caiu, caiu. Se não caiu, está lá. Não cabe perguntar se o jacarandá é de esquerda, se a andiroba votou no Amoedo ou se a maçaranduba achou que era tempo de chamar o Meirelles.

A livre nomeação dos ocupantes de cargos diretivos é um direito do presidente. Achar que cientistas, em sua maioria concursados e que compõem o quadro permanente do Inpe, são todos esquerdistas e querem prejudicá-lo, é pouco lógico – porém aceitável.

O que não é no mínimo aconselhável é tomar medidas claramente repressivas contra o órgão que apresenta dados que confrontem a realidade de escolha do presidente. Não é para o presidente que o Inpe existe, nem ao menos para pessoas que comungam de sua visão de mundo. É para o conjunto da sociedade brasileira, em particular, e para o mundo de modo geral.

As metodologias utilizadas pelo Inpe ao mensurar o desmatamento estão consolidadas por décadas de estudos, discussões, debates e acordos internacionais. Outros presidentes antes de Bolsonaro já torceram o nariz para os dados do desmatamento. Organismos internacionais já apontaram (sem muito sucesso, é verdade) supostas maquiagens nos números ao longo dos governos petistas. Não gostar é do jogo.

A questão é que o atual governo é abertamente a favor do agronegócio. E isso não é bom e nem ruim a priori. Mas é de se supor que, se o governo apoia o agronegócio, os agricultores vão se sentir encorajados a derrubar árvores para ampliar a fronteira agrícola. É o que fizeram e fazem desde os anos 70 (veja um mapa do Mato Grosso e veja como a cobertura de vegetação natural minguou nos últimos 50 anos).

Dito de outra forma, sejam os cientistas esquerdistas ou não, imaginar que o desmatamento aumentou é algo bastante razoável. O governo precisaria se preparar para a notícia, ou talvez normalizá-la, dizendo que o desenvolvimento tem um preço blá, blá, blá. Não é possível pular dentro do rio com roupa e tudo e deduzir que se vai sair na outra margem com a roupa seca. Não faz sentido.

No caso do Brasil, a agenda de exportação do agronegócio impõe certos dilemas. Um é de que o agronegócio estava cansado do PT, por razões variadas. A votação de Bolsonaro no Oeste brasileiro é um indicativo seguro desse enfado. Outro é que, embora houvesse um clamor por maior liberdade empresarial no campo, isso precisa ser feito dentro de parâmetros que acalmem os compradores internacionais – especialmente nos países de primeiro mundo, muitos com alto grau de exigência em sustentabilidade.

A revista britânica The Economist publicada esta semana traz na capa a matéria “Deathwatch for the Amazon”, que trata exatamente do poder que o Brasil possui sobre a maior floresta tropical do mundo. A aprovação recorde de agrotóxicos desde o começo do ano é igualmente um indicativo da maneira como o mundo nos vê – ou vê o que estamos fazendo. E isso, acredite, pode ser péssimo pros negócios.

De parte do Inteligência Política, se pudermos dar um conselho, é: ao investir em ações na Bovespa, fique longe daquelas voltadas ao agronegócio – especialmente as de empresas que concentram suas atividades na exportação.

Com a expectativa de baixa na procura dos produtos agrícolas brasileiros (se não somada à prática de sanções e embargos de parte dos organismos internacionais, o que seria trágico para a economia brasileira), a tendência é de barateamento de commodities no mercado interno, já que a produção deve crescer junto com a ampliação da área plantada.

Os alimentos, porém, podem ter baixa de preços nas prateleiras dos supermercados brasileiros a partir de 2020. Um bom alento para o consumidor. E é só.

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da Redação

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