Suposto cúmplice de hacker diz ter sido alvo de violência psicológica da PF

Por Leandro Prazeres e Aguirre Talento do O Globo

BRASÍLIA — O DJ preso por suspeita de fazer parte do esquema de invasão de contas do Telegram de autoridades, Gustavo Henrique Elias Santos , disse nesta terça-feira ter sido vítima de violência psicológica praticada por agentes da Polícia Federal quando foi preso. Ele disse ainda que a PF o impediu de entrar em contato com seu advogado, Ariovaldo Moreira. A declaração de Santos foi feita durante a audiência de custódia realizada na 10ª Vara da Justiça Federal do DF.

Santos e sua mulher, Suelen Priscila de Oliveira, também presa na Operação Spoofing, se queixaram de terem sido algemados para serem transportados pela PF até Brasília. Santos, inclusive, foi conduzido algemado até a audiência de custódia — suas mãos só foram liberadas no início da audiência.

Após a tomada dos depoimentos, a procuradora Márcia Zollinger, representante do Ministério Público Federal na audiência de custódia, solicitou à 10ª Vara Federal o fornecimento de cópias da audiência de custódia para enviar o material à Superintendência da PF em Brasília e à Corregedoria da PF para investigação de eventual abuso de autoridade e eventual descumprimento da súmula 11 do Supremo Tribunal Federal, que permite o uso de algemas apenas em caso de resistência, risco de fugo ou perigo à integridade física.

- Considerando os relatos dos presos, especialmente do Gustavo [Santos] e da Suelen de que teriam sofrido pressões psicológicas e os relatos dos quatro presos de que teriam sido algemados, o MPF solicita a cópia de todos os depoimentos da audiência de custódia para encaminhamento ao superintendente da Polícia Federal para apurar descumprimento da súmula 11 e se houve eventual abuso de autoridade - afirmou a procuradora.

Também ouvidos na audiência, Walter Delgatti Neto, que já admitiu ter invadido o Telegram de autoridades, e Danilo Cristiano Marques afirmaram que não sofreram maus-tratos, mas confirmaram terem sido algemados para transporte pela PF.

O juiz Vallisney de Oliveira rejeitou a soltura dos alvos da PF, sob argumento de que não houve mudança nos fatos desde a sua decisão de prorrogação da prisão temporária, proferida na última sexta-feira. O prazo das temporárias deve terminar na quinta-feira, quando a PF deve decidir se solicita prisão preventiva ou se libera os quatro suspeitos. Caberá à Justiça decidir sobre a permanência na prisão.

Na audiência, Santos afirmou que, fisicamente, foi bem tratado pelos policiais que participaram de sua prisão, mas que foi alvo de agressões verbais.

- Fisicamente, me trataram super bem, mas psicologicamente fui bem agredido verbalmente. Me chamara de bandido, hacker, e outras coisas - disse Santos.

Segundo ele, Suelen também teria sido alvo de violência psicológica. De acordo com Santos, ela teria precisado de absorventes e a PF não os forneceu.

No momento em que ela foi chamada a falar, Suelen, chorando, disse ter sido mal tratada.

- Me trataram mal. Fizeram piadinha comigo. Eu nunca fiz nada para ninguém - afirmou Suelen.

O DJ afirmou que as agressões psicológicas começaram desde o momento em que os agentes da PF entraram em sua casa.

- Os policiais que entraram em casa já foram agredido verbalmente. Desde o momento em que estouraram a porta porque eu estava dormindo, eu fui agredido verbalmente. Eu colaborei. Mas como eu tenho porte, talvez foi por isso (que eles fizeram isso). Desde o começo, eu colaborei deixei eles super à vontade. Fui bem agredido verbalmente. (Me chamaram de) "hacker", "bandido", "tá preso", "perdeu". Não sabia o que estava acontecendo - disse Santos.

Procurada, a PF informou que até o momento não irá se manifestar a respeito.

Santos e Suelen negam participação na invasão de contas do Telegram de autoridades.

Em depoimento à PF, Santos afirmou que teve as contas do WhatsApp e Telegram hackeadas por Walter Delgatti Neto, que confessou ter invadido os celulares de diversas autoridades. O suspeito afirmou ainda que Delgatti mandou uma mensagem a ele se “vangloriando” de ter acessado o aparelho do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, e que fez um print da tela do notebook do hacker, contendo ícones do Telegram de autoridades, quando recebeu uma ligação em vídeo de Delgatti.

Na Operação Spoofing, agentes da Política Federal identificarammovimentações financeiras suspeitas de Santos e Suelen. Segundo a PF, entre abril e junho de 2018, o DJ movimentou R$ 424 mil. Já Suelen, R$ 203 mil, entre março e maio de 2019. Foram encontrados ainda R$ 99 mil em dinheiro vivo na casa deles. Santos atribuiu à quantia ao lucro de operações com bitcoin.

Ajude-nos a continuar nosso trabalho independente. Você jamais será livre, sem uma imprensa livre. Contribua.

da Redação

Comentários