Governo precisa superar 'sinais contraditórios' para conquistar investidores, diz Pedro Parente

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SÃO PAULO - Pedro Parente não vive mais em Brasília como nos tempos do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), no qual chefiou Casa Civil, Planejamento e Minas e Energia. Nem como quando esteve à frente da Petrobras, no governo Michel Temer (2016-2018), da qual se afastou após a greve dos caminhoneiros por causa do preço do diesel . Mas o atual presidente do Conselho de Administração da gigante BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, segue atento aos movimentos da capital federal.

O executivo adverte que o caminho traçado pela equipe econômica do governo Jair Bolsonaro pode gerar resultados, mas avalia que o governo precisa firmar o compromisso com essa trajetória diariamente. Para que agentes econômicos tenham confiança para voltar a investir, alerta, os sinais contraditórios que são emitidos a toda hora precisam cessar. Para ele, há um consenso sobre a necessidade de reformas, mas a tributária enfrentará mais dificuldades do que a reforma da Previdência .

Por que a retomada da economia não vem?

Ainda existe uma dose de incerteza latente. Existe por parte da área econômica uma linha bastante clara e definida. Mas o governo, como um todo, lança sinais contraditórios. As pessoas e as empresas estão com muita vontade de acreditar, mas ainda não conseguem acreditar 100%. É preciso a confirmação do comportamento virtuoso do governo para os agentes econômicos se lançarem numa linha maior de investimentos.

Os sinais contraditórios vêm do Palácio do Planalto?

Falta um comportamento mais uniforme do governo, que gere essa percepção de que há uma coerência bastante forte dentro de tudo o que o governo faz.

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Medidas como a liberação do FGTS geram efeitos concretos para a atividade ou afetam só o consumo de curto prazo?

Medidas assim ajudam, mas não acho que façam diferença substancial. Isso quer dizer que eu não faria uma medida dessa se estivesse no governo? Não. Mas tão ou mais importante do que medidas como essa seria essa demonstração bastante consistente de direcionamento inequívoco.

Essa demonstração tem que partir do presidente?

Isso tem que partir do governo como um todo. O presidente tem exercido com bastante ênfase a sua autoridade presidencial. Então, sem dúvida nenhuma, isso é do governo como um todo, partindo dele.

Qual o efeito prático da liberação do FGTS para uma empresa como a BRF?

Tudo que possa aumentar a renda disponível para as famílias, especialmente de baixa e média renda, tem impacto na cesta de consumo. É bom para nós.

Existe um excesso de expectativa em relação ao efeito da reforma Previdência sobre o crescimento do país?

Existe esse risco. Mas não dá para rejeitar a importância da reforma da Previdência. Ela é fundamental para o país. A gente caminha para a inviabilidade do sistema. Agora, deixar estados e municípios de fora dessa reforma é um aspecto muito ruim. Ela poderia ter um impacto muito maior se eles já pudessem estar dentro. Não vamos esquecer: isso vai exigir processos semelhantes a esse que estamos vendo, com a diferença de que nos estados (o Legislativo) é unicameral. Serão processos de negociação, de barganha, e que poderiam estar resolvidos (no nível federal). Infelizmente não foi à frente por preocupação com uma repercussão eleitoral. É um cálculo do qual eu discordo.

O governo terá, depois da Previdência, força dentro do Congresso para aprovar uma reforma tributária?

Existe hoje na sociedade um consenso de que as reformas são necessárias. A diferença, que não é pequena, é que na previdenciária havia um consenso bastante razoável com relação ao que deveria estar dentro da reforma. Na tributária, isso é completamente diferente. Os setores ligados à discussão são muito mais numerosos e há muitos ativos na defesa de seus interesses. Por isso, ela é muito mais difícil de ser alcançada.

O que o governo pode fazer?

Aproveitar as iniciativas que saem de dentro do próprio Congresso. Tenho muita dúvida sobre as vantagens de colocar uma nova proposta diferente daquelas que já estão em debate. Não podemos esquecer que o ótimo é inimigo do bom. Dadas essas diferenças todas de interesses, não existe sequer a capacidade de definir o que é a reforma ideal. Imagine alcançar essa reforma ideal. A vantagem de o governo tentar negociar dentro de um contexto já colocado pelo próprio Congresso é um pouco na linha daquelas coisas de lutas de defesa pessoal onde você aproveita a força do seu próprio oponente para que ele se movimente a seu favor.

Qual sua avaliação sobre a disputa comercial entre Estados Unidos e China?

O Brasil tem uma oportunidade única nesse contexto. Podemos, em muitas áreas, substituir os EUA na sua relação com a China. O país pode se beneficiar de uma atuação estratégica de maior aproximação com a China. Essa é uma questão relacionada ao sinais, que falei, que geram incertezas . Qual é a visão do governo em relação à China? Temos uma oportunidade única de tirar proveito, de maneira inteligente e sem afrontar os americanos, dessa disputa.

Em quase sete meses o governo já enfrentou problemas com caminhoneiros duas vezes. Insistir no tabelamento do frete é um equívoco?

Essa situação se colocou a partir do momento que fizeram o primeiro tabelamento (no acordo que encerrou a greve de maio de 2018). É um pouco aquela história de subir numa onça. Você sabe como sobe, mas não sabe como é que desce. Se o governo não encontrar uma solução que atenda especificamente os caminhoneiros , e que possa substituir o suposto benefício que eles têm com a tabela, esse assunto não se resolve. A tabela de fretes não é boa para ninguém porque ela tenta revogar uma coisa que é irrevogável: a lei da oferta e da procura.

Corremos o risco de uma nova paralisação como em 2018?

O governo tem que enfrentar isso de frente. Sem a busca desse tipo de mecanismo, o problema vai continuar. Uma nova greve vai ser muito ruim para o país.

A fusão da BRF com a Marfrig não andou. O “Plano Pedro Parente” não funcionou?

A possível fusão entre a BRF e a Marfrig tinha uma natureza de oportunidade. Não era um movimento estratégico à luz do nosso plano. Mas não é um ‘Plano Pedro Parente’. Evidente que tem minha participação, até porque sou presidente do Conselho e fui presidente da empresa por um ano, mas é o plano de um time e está indo muito bem.

O que o faz acreditar que o plano está funcionando?

Temos o amadurecimento desse plano de reorganização, adotado com consistência, além da disciplina de execução. O segundo elemento é o fator China (grande importador de proteína). E o terceiro é a possibilidade de vermos a superação das incertezas da economia brasileira para começarmos a ter um crescimento melhor e maior, permitindo que famílias possam consumir mais produtos, especialmente alimentos, subindo um pouco na escala de valor agregado.

A fusão era um extra ?

A Marfrig era aquele famoso plus a mais.

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da Redação

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