Presos em Bangu 8, Cabral e Cunha preparam livros sobre os bastidores da política

Por Cleide Carvalho e Gustavo Schmitt do O Globo

SÃO PAULO — Lado a lado em duas pequenas celas, no presídio deBangu 8 , na Zona Oeste do Rio, o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha e o ex-governador do Rio Sérgio Cabral têm planos em comum: prometem contar em livro os bastidores do que viveram na política.

Formado em jornalismo, Cabral começou a rascunhar de próprio punho numa espécie de caderno escolar. Cunha quer retomar a ideia de contar suas memórias sobre o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff em 2016, quando protagonizou a articulação que levou ao afastamento da petista.

No relato, não deve deixar de fora histórias de como Dilma foi alvo de fogo amigo de aliados, cujos nomes devem ser citados.

O livro de Cabral promete acrescentar detalhes e ir além das confissões feitas à Justiça sobre o esquema de corrupção que comandou no Rio. O ex-governador quer tratar da história de sua vida desde os tempos de Cavalcanti, subúrbio do Rio que marca a origem de sua família, então de padrão modesto, até se radicar em Copacabana. As informações são de fontes ligadas à família de Cabral.

Plataforma gratuita

A intenção de Cabral é publicar seu livro numa plataforma gratuita da Amazon. A empresa não quis fazer nenhum comentário sobre a sua ferramenta de publicação, que de forma gratuita permite que escritores e editoras disponibilizem livros para venda. O autor pode receber direitos autorais que variam de 30% a 70%.

Em 2016, familiares de Cunha chegaram a procurar, sem sucesso, três editoras para tratar de um livro. As negociações não foram adiante. Os contatos ainda não foram retomados.

Em 1989, o economista Eduardo Consentino Cunha começa carreira política no PRN, do ex-presidente Fernando Collor, de quem foi tesoureiro de comitê eleitoral. A dedicação lhe rendeu a Presidência da Telerj. Na época, conheceu a atual mulher, Claudia Cruz. Foi exonerado após o impeachment de Collor Foto: Cristina Granato 06/05/1997

Os livros sobre a Lava-Jato têm sido um filão no mercado editorial, que atravessa momentos difíceis. A obra do jornalista Vladimir Neto, “Lava Jato - o juiz Sergio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil”, lançada em 2016, quando a operação estava em seu auge, vendeu mais de 150 mil exemplares. Já o livro “A luta contra a corrupção: a Lava Jato e o futuro de um país marcado pela impunidade”, escrito pelo procurador Deltan Dallagnol e lançado em 2017, vendeu mais de 30 mil exemplares.

A doleira Nelma Kodama também escreveu sua história e informou que o relato será lançado pela editora Matrix. Em 2014, ela foi presa após ser flagrada com 200 mil euros na calcinha. Hoje, cumpre medidas previstas em seu acordo de delação. Recentemente, voltou a publicar fotos em seu Instagram, sem esconder a tornozeleira eletrônica.

Nelma teria sido amante do doleiro Alberto Youssef, cuja história também está prestes a virar livro. A trajetória de Youssef está sendo contada pelo jornalista Pedro Marcondes e deve ser lançada entre o fim deste ano e início de 2020 pela editora Objetiva. Além dos relatos de Youssef, o jornalista ouviu mais de cem pessoas para a biografia.

A Editora Planeta prevê até o início de 2020 o lançamento do livro do ex-ministro Antonio Palocci, que promete revelar informações dos escândalos de corrupção nos governos Lula e Dilma em que esteve envolvido ou de que tomou conhecimento. Ele promete incluir detalhes sobre o sítio de Atibaia e o tríplex do Guarujá, que levaram à condenação do ex-presidente Lula.

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da Redação

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