Nas areias das praias de Ipanema, Copacabana e Leme, camelôs vendem cocaína

Com informações do O Globo

RIO — Tem cocaína de R$ 100, maconha de R$ 20, dois “becks” por R$ 50 e ecstasy a R$ 70, num feirão da droga em plena Praia de Ipanema. Nas areias entre os postos 8 e 10, traficantes se disfarçam de ambulantes. Em voz alta, em meio ao anúncio dos vendedores de mate, empanadas e cerveja, oferecem cigarro e seda. Mas basta um contato visual para, no tête-à-tête, sem qualquer pudor, a oferta mudar, como constataram equipes do GLOBO, que se passaram por banhistas durante cinco dias de sol.

— Tenho da verdinha ( maconha ) e da branca ( cocaína ). A branca, para turista, faço a R$ 100. Para brasileiro, dou uma moral. Pego na “boca” a R$ 50. Se você me der R$ 70, “tá responsa”, porque preciso tirar minha parte — propôs um dos falsos camelôs, no Posto 9, por volta das 14h da última terça-feira.

Questionado se o pagamento era apenas em dinheiro, ele respondeu que tinha negócio:

— Consigo uma máquina de cartão. É um pouco mais caro. Pode também me passar o WhatsApp que faço entregas.

Conexão com o Jacarezinho

Essas abordagens, que também ocorrem em Copacabana e no Leme, são comuns. Na início da tarde da quarta-feira passada, numa caminhada de cinco minutos entre o calçadão, na altura da Rua Farme de Amoedo, e a beira-mar, três cigarreiros ofereceram drogas aos repórteres.

No mercado da praia, a venda de maconha é a mais comum e sempre ao gosto do freguês: prensada ou não, em quantidades de três a quatro gramas, enrolada na hora ou pronta para o consumo, em cigarros que os traficantes, às vezes, acendem para a clientela.

— O baseado enrolado é R$ 20. É o preço da praia. Mas posso fazer dois bolos ( de maconha ) e uma seda por R$ 20. Você ainda leva um cigarro a varejo de brinde. É cortesia — disse um vendedor no feriado de Corpus Christi, em 20 de junho, na altura da Rua Garcia D’Ávila.

No fundo dos tabuleiros, alguns ambulantes guardam droga que oferecem aos clientes, muitos deles turistas. Um saco de cocaína pode ser negociado por até R$ 100 à beira-mar Foto: Pedro Teixeira

Como garantia da suposta qualidade do material, ele e outros cigarreiros dizem que o entorpecente vem do Jacarezinho, na Zona Norte, e chega à orla de transporte público.

— Essa é a ‘braba’, vem do Jacaré. Sente o cheiro. É diferente da preta, que a concorrência vende — diz um deles, também perto da Garcia D’Ávila.

No mesmo ponto, um ambulante confirma a conexão com a favela. E dá detalhes para comprovar a origem:

— Pego o trem do Jacarezinho até São Cristóvão. De lá, todo dia, venho para cá de ônibus, no 461 (São Cristóvão-Ipanema, via Rebouças).

O Pavão-Pavãozinho é outra procedência citada. Além disso, os camelôs do tráfico têm em comum o fato de serem, na maioria, jovens. A quantidade de droga que eles carregam é pequena. Em tabuleiros de madeira, cestas de palha e até tampas de isopor, só ficam à mostra isqueiros e maços de cigarro legais. O material ilícito fica escondido, solto no fundo das bandejas improvisadas, em sacos plásticos ou latas como as de pastilhas para a garganta. O que não significa que a ilegalidade é difícil de ser flagrada.

Banca à Beira-Mar

Na última quarta-feira, um cigarreiro carregava também um cavalete, sobre o qual apoiava um tabuleiro na hora das vendas. No Posto 9, um usuário que comprava cocaína experimentou a droga ali mesmo, numa carreira em cima da banca do traficante.

Próximo à Rua Maria Quitéria, no dia 21 de junho, havia até uma espécie de tabacaria da praia, com cinco vendedores fumando e oferecendo maconha. Em determinado momento, um deles enrolou e acendeu um baseado para um homem mais velho.

— Sei o risco que eu corro — respondeu um jovem ao ser perguntado sobre a possibilidade de ser preso. — Mas o pessoal não pega ninguém aqui. Qualquer coisa eu corro e jogo o que eu tenho na areia.

Na última quinta-feira, nem a presença de três agentes do Ipanema Presente no calçadão, perto da Farme de Amoedo, inibia a “feira”.

Por lei, no entanto, qualquer pessoa que venda ou ofereça drogas pode ser condenada a penas de cinco a 15 anos de reclusão. A Polícia Civil afirma ter investigações em andamento sobre o tráfico na areia na 12ª DP (Copacabana), na 13ª DP (Posto 6) e na 14ª DP (Leblon). Titular da 12ª DP, a delegada Valéria Aragão destaca que outros camelôs traficam na orla, inclusive vendedores de caipirinha, que escondem a droga em isopores.

— Normalmente, os falsos ambulantes têm pouca mercadoria. Já os que tiram o sustento dessa profissão costumam andar curvados de tanto peso que carregam — diz a delegada, que pediu à prefeitura que providencie a uniformização e a fiscalização dos ambulantes autorizados a atuar nas praias.

Já a Polícia Militar ressalta o uso de quadriciclos e o Policiamento Ostensivo Geral Especial de Praia, com agentes fardados nas areias e calçadões. Segundo o comando do 19º BPM (Copacabana), no primeiro semestre deste ano, seis criminosos foram presos traficando entorpecentes na orla.

Em toda a região do 19º BPM e do 23º BPM (Leblon), de janeiro a junho deste ano, segundo dados do Instituto de Segurança Pública do Rio (ISP), foram realizadas 128 apreensões de drogas por tráfico, 19% a mais que no mesmo período de 2018 (107). Em abril, o Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas (BPTur) chegou a prender, na Praia de Copacabana, três jovens do Complexo da Maré com máquinas de crédito e débito para vender drogas a turistas. Até moeda estrangeira o grupo aceitava.

Do verão da lata aos apitaços dos anos 1990, uma história de polêmicas

A venda nunca foi tão despudorada, mas o consumo de drogas já causou muitas polêmicas na orla e em bairros da Zona Sul carioca. Nos anos 1990, os usuários promoviam apitaços para avisar quando a polícia se aproximava. Em 1995, o ex-chefe de Polícia Civil Hélio Luz cunhou uma frase que se tornaria famosa: “Ipanema brilha à noite”, em referência ao consumo de droga pela classe média.

Antes, o ano de 1987 ficou marcado pelo “verão da lata”, quando um navio de bandeira panamenha jogou ao mar, perto de Cabo Frio, latas recheadas com cerca de 22 toneladas de maconha. Rapidamente o material começou a aparecer do litoral do Rio ao Rio Grande do Sul, o que causou uma corrida por uma “pescaria” diferente na Zona Sul carioca.

Hoje, nos pontos percorridos pelo GLOBO, apenas no Arpoador os cigarreiros não ofereceram drogas ilícitas. Perto dali, estavam baseadas viaturas da Polícia Militar e da Guarda Municipal.

Já no Posto 9, um dos vendedores orientou, na terça-feira:

— Compra cedo porque, no fim da tarde, tem mais polícia e fica ruim para o crime.

No mesmo dia à tarde, perto do Posto 8, eles reconheceram um policial na praia e pararam o tráfico momentaneamente.

— Cadê o ‘cana’ que estava ali? — perguntou um deles.

— Já foi — respondeu outro, para, então, três cigarreiros levantarem-se da areia e seguirem a atividade.

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da Redação

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