Preso afirma à PF que hackeou por interesse próprio e entregou mensagens de forma anônima

Por Rubens Valente e Camila Mattoso da Folha de São Paulo

Em depoimento, Walter Delgatti Neto, um dos quatro presos sob suspeita de atuar como hacker, disse a Polícia Federal (PF) que encaminhou as mensagens ao jornalista Glenn Greenwald, fundador do site, de forma anônima, voluntária e sem cobrança financeira, segundo a Folha de São Paulo.

Segundo o preso, os acordos foram virtuais, pelo aplicativo de conversas Telegram, e ocorreram após os ataques aos celulares das autoridades.

De acordo com a Folha, a polícia agora trabalha para confirmar se as informações dadas por Delgatti, de que agiu de forma voluntária e sem pedir dinheiro em troca, são verdadeiras. O suposto hacker afirmou em depoimento ter agido por não concordar com os caminhos da Lava Jato.

Segundo investigadores, não há até agora indício de que tenha havido pagamento pelo material divulgado pelo The Intercept. A suspeita da PF é a de que o grupo hackeava contas do Telegram e também contas bancárias para conseguir dinheiro.

A perícia criminal da Polícia Federal copiou dados guardados pelo suspeito preso em plataformas de nuvens na internet que sugerem veracidade em pelo menos algumas das declarações de Delgatti até aqui. Entre o material apreendido, estão conversas entre procuradores da Lava Jato como as que foram divulgadas pelo Intercept.

De acordo com envolvidos na busca e apreensão na terça-feira (23) , um dos celulares de Delgatti estava na conta do Telegram do ministro da Economia, Paulo Guedes, quando agentes chegaram à casa dele, em Araraquara, São Paulo.

Para o ministro da Justiça, Sergio Moro, os quatro suspeitos presos como supostos hackers já seriam os responsáveis pela divulgação das mensagens que mostram interferência do ex-juiz da Lava Jato nas investigações da força-tarefa.

"Parabenizo a Polícia Federal pela investigação do grupo de hackers, assim como o MPF [Ministério Público Federal] e a Justiça Federal. Pessoas com antecedentes criminais, envolvidas em várias espécies de crimes. Elas, a fonte de confiança daqueles que divulgaram as supostas mensagens obtidas por crime", escreveu Moro, no Twitter, nesta quarta-feira (24).

Jornalistas do The Intercept rebateram a mensagem de Moro. Glenn Greenwald disse no Twitter que o ministro da Justiça “está tentando cinicamente explorar essas prisões para lançar dúvidas sobre a autenticidade do material jornalístico".

“Nunca falamos sobre a fonte. Essa acusação de que esses supostos criminosos presos agora são nossa fonte fica por sua conta [Moro]”, acrescentou Leandro Demori, editor-executivo do Intercept.

As primeiras mensagens vieram à tona, em 9 de junho, e o site informou que obteve o material de uma fonte anônima, que pediu sigilo. O pacote inclui mensagens privadas e de grupos da força-tarefa no aplicativo Telegram a partir de 2015.

Além de Delgatti, foram presos Gustavo Henrique Elias Santos, Suelen Priscila de Oliveira e Danilo Cristiano Marques.

Os quatro suspeitos foram detidos temporariamente (por cinco dias, prorrogáveis por mais cinco) na terça-feira. As ordens de prisão foram cumpridas em São Paulo, Araraquara (SP) e Ribeirão Preto (SP). Os envolvidos foram transferidos para Brasília.

Na decisão que fundamentou as prisões, o juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal do DF, apontou “fortes indícios” de que os quatro investigados “integram organização criminosa para a prática de crimes e se uniram para violar o sigilo telefônico de diversas autoridades brasileiras via invasão do aplicativo Telegram.”Segundo ele, os fatos demonstram que os suspeitos são “responsáveis pela prática de delitos graves”.

O inquérito em curso foi aberto em Brasília para apurar, inicialmente, o ataque a aparelhos de Moro, do juiz federal Abel Gomes, relator da Lava Jato no TRF-2 (Tribunal Regional Federal da 2ª Região), do juiz federal no Rio Flávio Lucas e dos delegados da PF em São Paulo Rafael Fernandes e Flávio Reis.

Segundo investigadores, a apuração mostrou que o celular do procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, também foi alvo do grupo. O caso dessas autoridades está sendo tratado em inquérito aberto pela Polícia Federal no Paraná.

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da Redação

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