Plano de liberação do FGTS para ativar consumo dá alento a varejo e fabricantes

Por Bruno Rosa, Daiane Costa e João Sorima Neto de O Globo

RIO - A intenção do governo de liberar saques de contas do FGTS já leva comércio e indústria a rever planos e pode funcionar como uma injeção de ânimo. A medida, que ainda passa por ajustes no Ministério da Economia e deve ser anunciada nesta semana, vem logo após a aprovação da reforma da Previdência em primeiro turno na Câmara , que contribuiu para melhorar a disposição do empresariado.

Com mais dinheiro nas mãos, a tendência é que brasileiros quitem dívidas para voltar a gastar e consumir mais. Neste cenário, já há empresas revendo demissões, desengavetando projetos de expansão e ampliando estoques.

A estimativa é que o montante injetado na economia chegue a R$ 30 bilhões , sem contar a liberação do PIS/Pasep, de cerca de R$ 20 bilhões. As iniciativas podem ajudar o governo de Jair Bolsonaro a encerrar 2019 com crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) um pouco maior do que o 0,81% previsto até agora.

Além disso, contribui para impulsionar a economia no segundo ano de mandato, tirando o país do ritmo de expansão na faixa de 1% registrado nos últimos anos.

— É uma resposta à crítica sobre o país não ter uma agenda de crescimento. A medida vem a se somar à abertura do mercado de gás e à agenda de privatizações e concessões — avalia o economista-chefe do Banco ABC, Luis Otávio Leal.

Em 2017, o saque de contas inativas do FGTS começou em março e impulsionou o consumo das famílias, que cresceu 1,18% no segundo trimestre e 1,05% no terceiro trimestre. Desde então, estes patamares não voltaram a ser alcançados, ressalta Leal. Mesmo quem usou os recursos extras para pagar dívidas teve o orçamento aliviado para consumir mais e o nome limpo para voltar ao crédito. A expectativa é que o efeito se repita este ano.

Ânimo com fim de ano

O presidente da Associação Comercial de São Paulo, Alfredo Cotait, avalia que a liberação de recursos será crucial para alavancar vendas e pode ter impacto de até 0,5 ponto percentual no PIB deste ano.

O anúncio serviu como um alento na Frescatto, fábrica de pescados em Duque de Caxias com cerca de 400 funcionários. A empresa decidiu suspender as demissões previstas para o segundo semestre.

— Estávamos prestes a cortar custos, com redução de pessoal. Agora, esse cenário mudou — afirma Thiago de Luca, diretor-geral da empresa, que já não trata mais 2019 como ano perdido.

Na Limppano, fábrica de produtos de limpeza, a previsão é que a alta do consumo se concentre em 2020, com melhora pontual neste ano.

— Havia a expectativa de que a aprovação da reforma da Previdência aconteceria mais rapidamente. Por isso, 2019 será um ano difícil. Estamos com o pé no chão. Estamos olhando já para 2020, quando podemos crescer entre 13% e 15% — diz Alex Buchhein, diretor-geral da empresa, que passa por uma ampliação.

Nas Lojas Cem, rede de móveis e eletrodomésticos com 267 unidades, a expectativa é de impacto positivo.

— Com base na experiência passada, pode haver uma alta de 10% no nosso faturamento — diz o supervisor-geral da rede, José Domingos Alves.

Grupo Soma, dono da Farm e da Animale, planeja retomar ritmo de abertura de lojas no próximo ano Foto: Marcos Ramos / Agência O Globo

José Jorge do Nascimento, presidente da Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros), ainda não fez as contas, mas vê oportunidade de as vendas crescerem a um ritmo maior que o do ano passado:

— No primeiro momento, o consumidor paga suas dívidas, mas, no segundo momento, ele parte para o consumo.

O Grupo Soma, dono das grifes Farm e Animale, já revisa seu planejamento. A previsão de abertura este ano de seis lojas da Foxton, outra marca do grupo, pode subir para 20 em 2020 se o impulso se confirmar. Para a Farm, que vai abrir três novas lojas em 2019, a intenção é retomar em 2020 o ritmo de crescimento anterior à crise, com a abertura de dez novos espaços por ano.

— A injeção de recursos vai reduzir a crise de confiança, apesar dos juros baixos. Esse cenário, com a reforma da Previdência, vai destravar a economia — aposta Marcello Bastos, cofundador do grupo.

Com 18 lojas de material de construção na Grande São Paulo, a Village costuma concentrar quase 60% das vendas no segundo semestre. Por isso, o proprietário da rede, Marcos Atchabaian, acredita que o dinheiro do FGTS pode dar um fôlego extra:

— Em 2017, o FGTS aumentou nossas vendas. Muita gente pagou dívidas, limpou o nome e voltou a tomar crédito para construir. No segundo semestre, as pessoas começam a reformar a casa para ter a casa bonita no Natal. Com o 13º salário e um reforço do FGTS, o varejo de material de construção se beneficia.

Efeito rápido na economia

O supermercado Farinha Pura, na Zona Sul do Rio, está refazendo sua estratégia para o fim do ano com a perspectiva de reforço no bolso dos consumidores para a compra de produtos de maior valor. A empresa, diz a sócia Licia Vidigal, pretende aumentar a oferta de produtos para o Natal:

— Com a melhora aguardada para o curto prazo, esperamos alta de 10% a 15% no fim de ano. Antes, a expectativa era de estabilidade.

As Casas Pedro planejam reforçar em 15% o estoque de produtos para o Natal, como castanhas e nozes. Felipe Mussalem, diretor da empresa, diz que o dinheiro do FGTS permite aumentar o consumo de itens não essenciais e vê espaço para alta de até 12%.

Na rede Unno, que reúne marcas de supermercados como o SuperPrix e Campeão, a expectativa era repetir o desempenho do ano passado, mas a previsão foi revista para uma alta de 15% nas vendas:

— O consumo reage rápido a esse tipo de notícia — diz Viviane Areal, diretora da rede.

Synésio Batista da Costa, presidente da Abrinq, de fabricantes de brinquedos, lembra que da última vez que o saque do FGTS foi liberado, o setor avançou 11% nas vendas do ano. Desta vez, pode fazer diferença nas compras de Natal, já que não houve melhora significativa no nível de empregos.

Entre os fornecedores do varejo, começa a despontar algum otimismo. Para Maurício Godinho, diretor comercial da GIC, que fornece soluções para a gestão de estoques de supermercados, há uma aceleração dos investimentos em tecnologia do setor, sinal de antecipação das previsões de retomada da economia.

O presidente Jair Bolsonaro confirmou, nesta quarta-feira, que vai anunciar nesta semana a liberação de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), assim como fez seu antecessor, Michel Temer, em 2017 Foto: Bárbara Lopes / Agência O Globo

Para economistas, a liberação do FGTS por si só não tem força para devolver um crescimento sustentável ao país. Guilherme Dietze, assessor econômico da Fecomércio-SP, adverte que o governo precisa restabelecer a confiança dos empresários para voltar a investir, o que reduziria o desemprego e aumentaria a disposição para compras.

Sergio Vale, economista da MB Associados, avalia que a liberação do FGTS ajuda politicamente o governo:

— Como o foco nas reformas pode parecer impopular, o governo está ávido por entregar algo para a população. O pior do PIB pode ter passado, mas vamos ficar próximo de 2017 e 2018 (quando a economia cresceu 1% em cada ano).

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da Redação

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