'A divisão': série do Globoplay conta como epidemia de sequestros foi controlada no Rio dos anos 90

Por Luiza Barros de O Globo

RIO - Em 1997, o Rio de Janeiro contabilizava 11 sequestros por mês apenas na capital. Esse é o ponto de partida de “A divisão” , que estreia no Globoplay na sexta-feira, dia 19. Primeiro thriller nacional do serviço de streaming, a série mostra como a onda de sequestros que tomou o Rio nos anos 1990 chegou ao fim, ao dramatizar os bastidores daquela época na DAS , a Divisão Antissequestro da Polícia Civil do Rio .

— Contamos uma história policial que foi resolvida através da inteligência. Isso é muito raro. Mas claro que também houve uma enorme explosão de violência — avalia o diretor Vicente Amorim.

Apesar de chegar primeiro ao Globoplay, “A divisão” é uma produção do Multishow em parceria com o braço audiovisual do Afroreggae , ONG comandada por José Júnior . Famoso por mediar conflitos em favelas, Júnior é criador e produtor da série. O projeto surgiu em 2011, quando ele apresentava o programa “Conexões urbanas” no Multishow e, para a atração, entrevistou o controverso ex-delegado da DAS Marcos Reimão.

A ideia inicial de Júnior era escrever um livro sobre a divisão antissequestro, mas a pesquisa para a obra acabou se desdobrando na série e em um filme, também dirigido por Vicente Amorim e com previsão de lançamento para janeiro do ano que vem. Para retratar a realidade da época, Júnior e Amorim levaram vítimas, policiais e até mesmo ex-sequestradores para a sala de roteiristas.

— Tivemos inclusive o encontro de uma pessoa que prendeu a outra, e o cara cumpriu pena — conta Júnior. — Nós conversamos com todo mundo, não há nada que seja 100% ficcional da minha cabeça.

No próprio time de roteiristas, há um ex-policial, José Luiz Magalhães, que escreve ao lado de Gustavo Bragança, Rafael Spínola, Fernando Toste, Aurélio Aragão e Erik de Castro. Ex-inspetor da Polícia Civil, Magalhães é a inspiração em parte para Santiago , personagem deErom Cordeiro .

Júnior e Amorim evitam apontar quais outras personalidades da vida real serviram de base para cada um dos personagens. Mas não é difícil ver paralelos com o período do governo de Marcello Alencar (de 1995 a 1999), quando o general da reserva Nilton Cerqueira comandava a Secretaria de Segurança Pública e o chefe da Polícia Civil era Hélio Luz, que se elegeria em 1999 deputado estadual pelo PT.

— Você tem um secretário de segurança pública que era de extrema-direita e um chefe da Polícia Civil que era um cara de formação comunista. Para o bem comum, os diferentes devem dialogar. Uma das grandes mensagens que a série passa é essa — diz Júnior.

Cenas gravadas na Vila Vintém

Em busca de talentos de comunidades e periferias, a produção chegou a realizar testes de elenco em Vigário Geral, na Zona Norte do Rio. Os ensaios foram feitos no morro do São Carlos, no Estácio, e parte das gravações ocorreu na Vila Vintém, na Zona Oeste. Segundo José Júnior, tudo para fugir da Tavares Bastos, comunidade no Catete conhecida por sua relativa tranquilidade e, por isso, normalmente preferida para gravações de filmes e novelas.

— Outra coisa que fizemos questão foi de que, dos dois protagonistas, um fosse negro. Na vida real, não era assim. É uma série que você tem dois profissionais negros, um delegado e uma médica, que são chamados de doutores o tempo todo. E você não vê negro no audiovisual brasileiro sendo chamado assim.

Em “A divisão”, a trama começa quando a filha do deputado estadual e candidato a governador Venâncio Couto (Dalton Vigh) é sequestrada e o policial linha-dura Mendonça (Silvio Guindane) assume o comando da DAS. Também estão na série Marcos Palmeira, Natalia Lage e Vanessa Gerbelli.

— A pergunta que a série coloca para o espectador é se, para atingir a redenção, os fins realmente justificam os meios. A gente não responde essa pergunta, mas a coloca com muita clareza. E acho que, mais do que nunca, essa é a pergunta que está na ordem do dia no país — afirma Amorim.

A estreia de “A divisão” acontece com uma segunda temporada já gravada e confirmada para chegar ao Globoplay, ainda sem data. O Afroreggae Audiovisual também grava no momento uma outra série policial para o Globoplay em parceria com o Multishow, “Arcanjo renegado” . Com Marcello Melo Jr. e Erika Januza, a produção não tem data de lançamento por enquanto.

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da Redação

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