Eduardo embaixador: como Bolsonaro perde chance de capitalizar Previdência

Com informações do Site Inteligência Politica

A indicação de Eduardo Bolsonaro para a embaixada dos Estados Unidos é um ótimo exemplo do mau uso do capital político. Na semana em que o governo (ainda que sob a mobilização do presidente da Câmara, Rodrigo Maia) teve uma expressiva vitória no na Câmara com a aprovação do texto base da Reforma da Previdência, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) deixou de aproveitar o bom momento para acenar por uma possível indicação de seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, para o cargo máximo na embaixada do Brasil nos Estados Unidos.

Considerado o cargo mais alto dentro do Itamaraty, abaixo somente do chanceler, esse cargo vem sendo ocupado tradicionalmente pela elite da diplomacia, profissionais com muito tempo de carreira e relevantes serviços prestados às relações exteriores, como Paulo Tarso Flecha de Lima.

A indicação remonta ao período monárquico, em que casamentos entre membros da família real eram acordos internacionais. Ou até mesmo à chamada “velha política”, bandeira da campanha de Bolsonaro como algo a ser combatido: uma das características dessa prática é a apropriação do poder por famílias. No período recente, estratégia parecida foi tomada pela Arábia Saudita, Khalid bin Salman bin Abdulaziz Al Saud , filho do rei,ocupou o cargo entre 2017 e 2019.

A atual política externa é marcada por decisões contraditórias e pirotecnia. O que está sendo chamado de “política teológica” se baseia em ensinamentos do guru do governo Olavo de Carvalho e tem como principais personagens o ministro Ernesto Araújo e Filipe Martins, assessor da presidência para assuntos internacionais. A inicial proposta de alinhamento aos Estados Unidos trouxe o medo do isolamento na comunidade internacional, cada vez mais conectada. Contudo, mesmo sob perspectivas sombrias, o país teve uma boa participação no G20 e o fechamento do acordo com a União Europeia, polêmico e não consolidado plenamente, trazem a simbologia de abertura para o mundo.

Para nossa sorte, a Política Externa brasileira é reconhecida pela excelência, pragmatismo e a tradição dos 282 anos da Casa de Paranhos. O fato de uma PEx enviesada ideologicamente não é novidade em nossa história, vide os governos Lula e Dilma, contudo a qualidade dos nossos diplomatas para assessorar costumou se destacar mesmo nesses ambientes. Indicar o filho do presidente como embaixador de tão alto cargo não abala a imagem da PEx brasileira no mundo, mas faz mais uma vez cortina de fumaça desnecessária aos atos do governo a ponto de mesmo seus apoiadores indicarem desacordo.

Para que Eduardo Bolsonaro seja efetivado no cargo ainda falta um caminho regulamentar, e por enquanto, enquanto escrevo, o presidente insiste nisso. Há que esperar, mas desde já se indaga que talvez falte a quem rege o país agir menos como monarca e ler mais O Príncipe de Maquiavel antes de tomar suas decisões.

O Brasil é um país reconhecidamente multicultural. Nossa riqueza e destaque vem do talento expressado pela diplomacia brasileira de dialogar e fazer comércio com todos. Neste cenário, mesmo nos governos de esquerda, a relação com os Estados Unidos sempre foi objeto de grande atenção no Itamaraty. Subestimar o cargo pode trazer prejuízos.

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da Redação

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