Indicação de Eduardo para embaixada é 'balão de ensaio' de Bolsonaro, avaliam membros do Planalto

Por Jussara Soares de O Globo

BRASÍLIA - Integrantes do Palácio do Planalto avaliam que o presidente Jair Bolsonaro soltou um "balão de ensaio" ao confirmar, em entrevista coletiva à imprensa, que cogitava indicar o filho, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), para a embaixada brasileira nos Estados Unidos . Para os auxiliares, Bolsonaro divulgou a informação para testar a receptividade da ideia de ter o 03, como chama o terceiro dos seus herdeiros, em um dos postos mais importantes da diplomacia brasileira.

Após a repercussão, o chefe do Executivo, segundo assessores, tenta medir a extensão de um possível desgaste político e também uma eventual contestação da indicação na Justiça. O resultado desta análise pode fazê-lo recuar da sua intenção. Para estes mesmos auxiliares técnicos, neste momento, o declínio da ideia "parece o mais provável", embora admitam que o presidente "sempre pode surpreender."

Na manhã de sexta-feira, o presidente se reuniu por 20 minutos com os ministros Jorge Oliveira, chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, e André Luiz de Almeida, da Advocacia-Geral da União (AGU). Os dois são considerados os principais conselheiros de Bolsonaro na área jurídica. A assessoria da Secretaria-Geral negou que o tema da reunião tenha sido a indicação de Eduardo.

Na avaliação de duas fontes do Planalto, Bolsonaro tem o costume de antecipar anúncios para poder avaliar como suas iniciativas serão interpretadas e, só depois de medir a temperatura, passa aos debates para verificar a viabilidade de suas propostas.

A hipótese de indicar Eduardo para embaixador em Washington, relata um assessor, era comentada há meses, mas não havia nenhum indicativo de que Bolsonaro concretizaria a ideia. Ao confirmar à imprensa que cogitava a indicação de Eduardo, o presidente surpreendeu até mesmo os seus auxiliares mais próximos.

O ministro Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo ( Segov ), admitiu na sexta-feira em café com jornalistas, que o presidente poderia ter esperado ao menos uma semana para anunciar a possível indicação do filho para evitar a repercussão em meio à votaçãdo reforma da Previdência na Câmara. Porém, Ramos justificou que, neste momento, o presidente manifestou apenas a intenção de indicar o filho e citou como exemplo de outras declarações que não se concretizaram a ideia de transferir a embaixada em Israel para Jerusalém.

— Meu amigo Bolsonaro tem esses momentos. Vou citar a famosa "vou levar embaixada pra Jerusalém". Eu pergunto: hoje está onde? Em Tel Aviv. Ele manifestou uma intenção... — observou.

Opção a Olavo de Carvalho

A indicação do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) para a Embaixada dos Estados Unidos era defendida pela ala ideológica nos bastidores desde a transição do governo, no final do ano passado. A hipótese, no entanto, começou a ganhar força durante a viagem do presidente Jair Bolsonaro , em março, a Washington, nos Estados Unidos, quando se reuniu com o presidente americano Donald Trump, na Casa Branca.

Eduardo surgiu como uma alternativa defendida pelo grupo ligado ao ideólogo de direita Olavo de Carvalho . A primeira opção seria indicar o próprio ideólogo, que teria pedido para retirar o nome da "bolsa de apostas." Mas após o deputado ser elogiado por Trump, Bolsonaro se convenceu de que nomear o próprio filho, mirando nas boas relações com os Estados Unidos, poderia ser uma boa ideia.

Na ocasião, após ter sido apresentado por Bolsonaro ao ocupante da Casa Branca, Eduardo foi convidado pelo próprio Trump para a reunião no Salão Oval. Em seguida, em entrevista no Rose Garden, o presidente americano agradeceu a Eduardo por contribuir para a aproximação dos dois países.

O cargo de embaixador nos Estados Unidos está vago desde abril . Promovido em junho ao topo da carreira, o diplomata Nestor Forster passou a ser o mais cotado para o posto. Amigo de Olavo de Carvalho de longa data, ele apresentou o ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, ao ideólogo. Forster também atuou na organização da agenda de Bolsonaro nos Estados Unidos, que, além do encontro bilateral com Trump, incluiu encontro com pensadores de direita e religiosos.

De acordo com uma fonte do governo brasileiro, o diplomata é bem visto no entorno do presidente e segue com força e disputa "de igual para a igual" o posto de embaixador nos Estados Unidos.

Ajude-nos a continuar nosso trabalho independente. Você jamais será livre, sem uma imprensa livre. Contribua.

da Redação

Comentários