Nomeação de Eduardo Bolsonaro para embaixada fica nas mãos de Senado e Judiciário

Por Marco Grillo, Eliane Oliveira e Gustavo Maia de O Globo

BRASÍLIA - Ao anunciar a intenção de indicar o próprio filho para a embaixada brasileira em Washington, o presidente Jair Bolsonaro, além de promover um gesto inédito na diplomacia do país, atrelou o sucesso da iniciativa à receptividade de duas instituições que são alvo constante de ataques da base bolsonarista nas redes e nas ruas: o Congresso e o Poder Judiciário . Ontem, a possibilidade de o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), sem carreira no Itamaraty , ocupar um dos postos mais cobiçados da Chancelaria gerou reações concretas na política e no mundo jurídico.

No Senado, responsável por avalizar as indicações de embaixadores, membros da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional — o colegiado sabatina os candidatos — criticaram a possível escolha e prometem resistir se a indicação se concretizar. O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), também membro da comissão, disse que nesse caso vai à Justiça.

Advogados já se anteciparam e pediram que a indicação seja vetada, como informou o colunista Guilherme Amado, da Época. Por sua vez, o PSOL entrou com representação à Procuradoria Geral da República (PGR) pedindo investigação sobre a possível indicação. O partido alega que quer evitar “ato ilegal e imoral”.

O receio de que a judicialização amplie o desgaste é o motivo de, dois dias depois de Bolsonaro ter tratado publicamente do assunto, o convite ainda não tenha se concretizado, conforme antecipou, ontem, a colunista Bela Megale, do GLOBO.

Com um cenário tortuoso desenhado à frente, Eduardo pretende renunciar ao mandato na Câmara apenas se tiver o nome aprovado no Senado. A Comissão de Relações Exteriores da Casa ainda estuda juridicamente o assunto para determinar em que momento ele precisa abrir mão da cadeira de deputado. Enquanto isso, senadores já se movimentam para evitar o que classificam como um “retrocesso”. As votações na comissão e no plenário da Casa são secretas, o que aumenta o desafio, já que Bolsonaro optou por não constituir base parlamentar.

— Estou muito preocupado e não vou votar favoravelmente. Temos que botar profissionais. Recebo diplomatas toda semana e vejo o nível e tempo de trabalho em vários países. E vai ser dentro desse critério que vou continuar querendo indicação de diplomatas. Não alguém caindo de paraquedas. Para mim, é um adolescente pilotando um Boeing — criticou o senador Marcos do Val (Cidadania-ES), vice-presidente da Comissão.

Também integrante do colegiado, a senadora Mara Gabrilli (PSDB-SP) acrescentou que a hipótese também contraria o discurso da “nova política” citado por Bolsonaro desde a campanha eleitoral.

— Isso é exatamente a perpetuação da velha política, de uma forma de fazer política que ele mesmo diz que combate. Fora o desgaste que vai ser para o Eduardo. A sabatina dele vai ser de massacrar — prevê ela.

Para o senador Angelo Coronel (PSD), outro titular do colegiado, falar inglês e ter boas relações com familiares do presidente Donald Trump “não são predicados”:

— Ele terá que mostrar o seu currículo e sua capacidade pra ser aprovada sua indicação. A imagem do Brasil não pode ser abalada pelo simples capricho do pai querendo agradar o filho.

'Decisão é do presidente'

O presidente da Comissão de Relações Exteriores, senador Nelsinho Trad (PSD-MS), reuniu-se ontem com o ministro Ernesto Araújo. O parlamentar defendeu o direito de escolha de Bolsonaro.

— A decisão é do presidente da República. Quem passou pela campanha foi ele (Bolsonaro), quem levou a facada foi ele, quem ganhou a eleição foi ele. Ele tem todo o direito de escolher quem é melhor. Ainda mais tendo um relacionamento extremamente particular e intenso com a política americana — pontuou Trad.

Ontem, Bolsonaro negou que a possível escolha do filho configure nepotismo.

— Essa função, tem decisão do Supremo, não é nepotismo. Jamais faria isso — declarou o presidente, referindo-se à súmula vinculante número 13, do STF.

O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo, já afirmou que o caso seria enquadrado como nepotismo. Em 2017, o ministro suspendeu a nomeação de Marcelo Hodge Crivella como secretário da Prefeitura do Rio, comandada pelo pai, Marcelo Crivella.

Especialistas que acompanham as redes sociais do Planalto observam que o presidente Bolsonaro “fabricou” mais uma crise ao anunciar Eduardo como possível embaixador nos EUA. Nas redes, as interações negativas “abafaram” os vazamentos da Lava-Jato e os desgastes gerados pela votação da reforma da Previdência.

(Colaborou Naira Trindade)

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da Redação

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