As histórias do "sr. Oliveira": as lendas que deram a João Gilberto a fama de excêntrico

Por Leonardo Lichote de O Globo

RIO — João Gilberto sempre atraiu atenções para além de sua produção musical. Ao longo de sua história, ele foi cercado por um folclore em torno de sua personalidade — marcado por manias e alimentado pela curiosidade que seu isolamento gerava. Se o próprio Tito Madi confirma o golpe de violão com que João Gilberto lhe abriu um corte na cabeça, no dia em que ele, Tito, se atreveu a pedir silêncio ao amigo, outras passagens carecem de comprovação.

Há lendas sobre uma sensibilidade auditiva quase sobre-humana, que faziam seus ouvidos captarem sons que ninguém mais ouve; sobre o menino de sete anos que percebeu uma nota errada no órgão da igreja; sobre o cantor que, de tanto cantar “O pato”, levou seu gato a suicidar-se, atirando-se da janela.

No documentário “Onde está você, João Gilberto?”, de Georges Gachot, o compositor Roberto Menescal lembra que, desde o início, o músico já era alguém de comportamento personalíssimo. Menescal conta que se ofereceu para emprestar uma camisa para a foto de capa de um disco que João faria. O baiano ficou em dúvida entre qual levar e escolheu todas, para devolver após a sessão. Rindo, Menescal diz que nunca mais viu suas blusas.Mais do que um desejo de ficar com as camisas do amigo, a história revela o que pessoas próximas a João diziam: ele era completamente alheio a regras sociais (ou regras, ponto) do mundo das outras pessoas. É dos mais conhecidos o episódio em que ele teria chamado a cantora Elba Ramalho para sua casa, pedindo que ela levasse um baralho — o que ela fez, mas ao chegar lá ele pediu-a que passasse as cartas por debaixo da porta. Ou os pedidos de comida por telefone, sobretudo ao Antiquarius, para onde só falava com o mesmo funcionário e se identificava como “senhor Oliveira”.

Noutro caso da mesma linha, Almir Chediak, que conversava por telefone longa e frequentemente com João (uma das manias do baiano, aliás), foi chamado à sua casa para afinar seu violão. Feliz com a possibilidade de conhecer o ídolo pessoalmente, ele encontrou o violão na portaria. O recado é que ele afinasse e depois subisse para ser recebido. Mas, quando chegou à porta do apartamento, ouviu João pedir do outro lado que ele deixasse o violão no corredor.

Deixou e ficou observando afastado, até que viu a porta se abrir apenas o espaço suficente para que o instrumento passasse, puxado pela mão do criador da bossa nova.

Seu perfeccionismo gerou outra leva de histórias curiosas. As reclamações quanto ao barulho de ar condicionado ou ao comportamento da plateia em seus shows já rendeu episódios como quando o público, na inauguração de uma casa de shows em São Paulo, em 1999, perdeu a paciência com suas reclamações e começou a vaiá-lo. Ele respondeu cantando o versinho que se tornou famoso: “Vaia de bêbado não vale”. Mais de 30 anos antes, ele abandonara o palco ao ouvir a plateia cantar “qüem qüem” em “O pato”.

A obsessão com a simetria fez com que ele quase não subisse ao palco no histórico concerto no Carneggie Hall. Segundo Ruy Castro conta em seu “Chega de saudade: a História e as histórias da bossa nova”, o show já havia começado quando, nos bastidores ele reclamou que o vinco de sua calça não estava paralelo à costura, o que atrapalharia sua apresentação: “Assim não posso cantar”. Dora Vasconcellos, consulesa do Brasil, foi quem conseguiu encontrar um ferro ali — e ela mesma passou a calça.

Em meio às histórias que combinam excentricidades, uma paixão chama a atenção pelo inusitado: João amava boxe e MMA. Caetano Veloso chegou a fazer referência indireta a isso em “A bossa nova é foda”, na qual lista lutadores: “O velho transformou o mito/ Das raças tristes/ Em Minotauros, Júnior Cigano/ Em José Aldo, Lyoto Machida/ Vítor Belfort, Anderson Silva/ E a coisa toda/ A bossa nova é foda”.

O compositor explicou: “Todo mundo pensa que a bossa nova é passarinho, mar azul, doce, suave. Mas não é. É um gesto de grande força combativa e foi vivido conscientemente assim pelo seu inventor”. Difícil separar o que é lenda do que é verdade em torno do que se diz de João na intimidade, mas uma história contada por amigos ecoa as palavras de Caetano: na época em que se permitia sair de casa, João adorava dirigir de olhos fechados. Dizia-se “guiado pelas estrelas” ou por um “santo muito forte”.

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da Redação

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