Opinião: Na reta final da reforma da Previdência, os nervos estão à flor da pele, por Tales Faria

Por Tales Faria colunista do UOL

O governo e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), devem concluir nesta semana, como queriam, a votação da reforma da Previdência na Comissão Especial.

Mas isso não significa que está tudo tranquilo. Nem mesmo que governo e Câmara estejam jogando juntos. Muito menos que um dos dois tenha segurança do resultado final do processo.

Principal ponto de interrogação dos dois lados: há votos suficientes para a aprovação em plenário?

Tudo indica que, hoje, esses votos ainda não foram conquistados.

O problema é que, aprovado o texto na comissão, estará acionado o gatilho para a votação em plenário.

E aí tudo pode ir por água abaixo, se não se chegar até o dia da votação com pelo menos 330 deputados convencidos (a margem de segurança para contar com os 308 necessários).

Rodrigo Maia apostou suas fichas na aprovação em plenário ainda antes do recesso. Ou seja, os 330 deputados favoráveis teriam que estar contabilizados até o próximo dia 17.

Ele fala na possibilidade de adiar o início do recesso. De fato, tem poder para isso. Mas, se não houver votos necessários, não sabe se terá apoio para o adiamento do recesso.

Pior: o presidente da Câmara tem no seu calcanhar, a fustigá-lo, o presidente da República.

Mesmo se a reforma for aprovada, o risco é de que os louros fiquem para Bolsonaro e os ônus para o comandante da Câmara, cada dia mais identificado como líder da velha política e do Centrão. Isso o deixa mais irritado ainda.

Daí porque Rodrigo Maia tem reclamado com aliados de que o Planalto "não está jogando limpo com o Congresso".

Mas, assim como o presidente da Câmara está com os nervos à flor da pele –premido pelas incertezas da reforma e pelo jogo de estica e puxa de Jair Bolsonaro– o mandatário do Planalto também é puro nervosismo.

Pouca coisa deixou o presidente da República tão irritado nos últimos dias quanto ser chamado de traidor pela categoria dos policiais.

Mais do que os militares, os policiais e correlatos são o núcleo da base eleitoral bolsonarista.

Bolsonaro tentou um arranjo entre o ministro da Economia, Paulo Guedes, o relator da Previdência, deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), e os representantes das carreiras de Segurança Pública. Não conseguiu.

Agora faz apelos para a mudança durante a votação.

Conseguiu irritar mais ainda o chamado Centrão do Congresso, que vê aí uma tentativa de indispor os políticos com os policiais e ainda obrigá-los a convencer as outras categorias de que não teriam direito ao mesmo privilégio.

O Centrão reagiu como sempre: com um preço mais alto pelo sacrifício. Cobrou do ministro chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, a liberação mais rápida das emendas impositivas já votadas pelo Congresso e das verbas chamadas "extra-orçamentárias". Um total de R$ 40 bilhões.

Se isto não ocorrer até a votação em plenário, tudo pode ir por terra na reforma da Previdência.

Sem contar que a disputa entre o PSL e o Centrão na questão dos policiais só deverá ser resolvida mesmo durante a votação em plenário.

E sem contar ainda a irritação do ministro Paulo Guedes. Sua proposta de reforma foi completamente remodelada no parecer do relator, com um valor total ainda incerto e sem o que ele considerava a solução real: o chamado sistema de capitalização. Guedes tem criticado o quanto pode as negociações no Congresso. Há dúvidas até se ele permanecerá no cargo após a votação.

Onyx Lorenzoni, por sua vez, está no meio de uma frigideira muito mais quente. Foi destituído da função de articulador político do governo, mas obrigado pelo presidente a exercê-la interinamente (ou seja, com a autoridade desgastada).

Anda péssima a sua relação com os líderes na Câmara do PSL, Delegado Waldir (GO), e do governo, Vitor Hugo (GO).

E Bolsonaro só falta rosnar, internamente, cada vez que um deles vem com queixa do outro no Palácio do Planalto.

Nos corredores do Palácio, a propósito, circula desconfiado e irritadiço um antes poderoso general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

Considerado o amigo número um do presidente no meio militar, o general agora vê sua atuação à frente do GSI criticada publicamente por Carlos Bolsonaro, filho pitbull do chefe e que já derrubou outros ministros e generais antes poderosos.

O resultado da confusão é considerado como absolutamente imprevisível para todos os envolvidos no processo.

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da Redação

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