Análise: As árvores tombam no meio da Floresta Amazônica, mas o impacto mexe no bolso de quem está nas cidades

Por Ana Lucia Azevedo do O Globo

O aumento do desmatamento na Amazônia é uma má notícia para todos os brasileiros, estejam ou não preocupados com o meio ambiente . As árvores tombam no meio da Floresta Amazônica , mas o impacto mexe com o bolso dos habitantes das cidades. A floresta desaparece na Região Norte, mas é no Sul do país que a chuva gerada por ela fará falta, para beber e plantar. E quando a floresta queima, ardem os pulmões de quem vive no Sudeste. Não se trata de opinião, mas de fatos.

Mais distante do cotidiano dos brasileiros urbanos do que a Lua, no século XXI a Amazônia se tornou bem mais do que símbolo ambiental. Ela está nos acordos comerciais, como o recém-assinado entre o Mercosul e a União Europeia , que tem cláusulas restritivas a produtos provenientes de áreas de desmatamento.

A preocupação do consumidor europeu com o combate ao desmatamento e a consequente preservação da Amazônia — pouco importando se seus países destruíram suas próprias matas no passado — faz diferença no momento em que nossas exportações precisam do dinheiro dele para crescer.

Temos os dados do Inpe para monitorar a floresta. Mas não se iludam os desmatadores que avançam sobretudo sobre as terras públicas, patrimônio construído com o dinheiro do contribuinte, que Deter e Prodes são as únicas ferramentas. Satélites miram onde o dinheiro paga. E no mês passado, por exemplo, foi lançado o Global Forest Watch Pro (GFW Pro), um sistema on-line e em tempo real para avaliar o desmatamento das principais commodities: carne, soja, café, borracha, madeira, olho de palma, cana-de-açúcar.

Mais de 80 empresas internacionais já aderiram, entre elas a trader de grãos Cargill, além de gigantes como Unilever e Procter & Gamble. Querem saber, por exemplo, se a soja usada para fazer sabonete ou papinha de bebê veio de área desmatada.

Por seu tamanho, a Amazônia brasileira é a maior preocupação. Mas também olham para Colômbia e Peru, onde acelera a destruição da mata. Na Colômbia, foi alavancada após o acordo do governo com as Farc, que liberou terras antes sob domínio da guerrilha, diz o climatologista Carlos Nobre, especialista em Amazônia.

De volta ao Brasil, estudos já mostraram a relação direta entre a seca no Sul da Amazônia e a diminuição das chuvas que permitem a existência das florestas do oeste do Paraná, como as das cataratas do Parque Nacional do Iguaçu e as que protegem a Usina de Itaipu. Essas chuvas são trazidas pelos rios voadores , jatos de ar carregados de umidade que se originam sobre a floresta e atravessam o Brasil, a cerca de 3.000 metros de altitude.

A Amazônia está entre nós. Não é escolha. São as regras do planeta. Quando ela encolhe, também perdemos.

Ajude-nos a continuar nosso trabalho independente. Você jamais será livre, sem uma imprensa livre. Contribua.

da Redação

Comentários