Odebrecht terá que esclarecer US$ 10 milhões ilegais pagos no Peru

Com informações do Poder360

Pelo menos 45 pagamentos, que somam mais de US$ 10 milhões, registrados no sistema de propinas da Odebrecht, devem ampliar o alcance da Lava Jato no Peru, 1 dos países mais afetados pelo esquema de pagamentos ilegais tocado pela empreiteira brasileira.

A exemplo do que foi feito no Brasil, os repasses ilegais envolvem políticos de alto escalão de diferentes matizes partidárias.

A maior parte dos pagamentos era desconhecido de autoridades e constam de documentos trazidos a público pela investigação “Bribery Division” (Divisão de Propinas), conduzida pelo ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos). No Brasil, participaram da apuração o jornal digital Poder360 e a revista Época.

Os novos repasses identificados no Peru constam de arquivos do sistema Drousys, usado para operacionalizar os pagamentos ilegais de interesse da empresa. Eles aparecem relacionados a 11 obras públicas, entre elas, a construção do Gasoducto del Sur, feito em parceria com a Energás e com orçamento de US$ 7 bilhões durante o governo de Ollanta Humala.

A Odebrecht nunca havia admitido ter realizado pagamentos ilegais relacionados à obra. Mas, agora, deverá ser obrigada a esclarecer o contexto de 19 pagamentos a diferentes codinomes vinculados a esse projeto, que somam US$ 3,2 milhões e foram identificados no ano de 2014.

Os pagamentos foram feitos a 11 pessoas identificadas sob diferentes codinomes. Os que mais receberam foram “Disco” (US$ 400 mil); “Princess” (US$ 900 mil); “Gaza” (US$ 430 mil); “Magali” (US$ 450 mil); “French” (US$ 500 mil) e “Novatos” (US $ 200 mil).

A reportagem conseguiu identificar pelo menos 1 político beneficiário final de pagamentos. Pouco mais da metade do valor pago a “Gaza” foi recebido pela empresa CGZ Ingenieria Corp, cujo dono é Constantino Galarza Zaldívar, atual vice-governador do distrito de Callao, na região metropolitana da capital Lima.

Os dados mostram que ‘Gaza’ recebeu 1 terceiro pagamento no valor de U$ 40 mil por meio da offshore PEL (Project Engineering And Logistics), controlada por 1 doleiro do Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht.

Em entrevista, Galarza Zaldívar disse que os pagamentos à sua empresa resultaram de assessoria financeira relacionada a 1 projeto paralelo ao oleoduto, que não se concretizou, apesar de ter supostamente prestado os serviços.

Entre os pagamentos, também foram identificados repasses à offshore uruguaia Fortune Active, cujo proprietário é ex-executivo da Odebrecht na Argentina: Daniel Díaz, especialista em gás e energia. O trabalho de construção do gasoduto esteve a cargo de uma equipe de argentinos e brasileiros.

Díaz foi 1 dos especialistas que, como consultor, recebeu pagamentos para o Gasoduto Sur Peruano enquanto, sob o mesmo codinome de ‘Novatos’, recebeu outros 10 pagamentos, num montante global de US$ 2,5 milhões referentes a 1 projeto descrito na planilha como “Dutos Argentinos”.

Por que pagar, neste caso, através do Setor de Operações Estruturadas? O mais provável era evitar o pagamento de impostos e depositar o dinheiro fora do país.

Os pagamentos ilegais se relacionam ainda a pelo menos mais 10 obras realizadas pela empreiteira brasileira no Peru. A divulgação de repasses que foram omitidos nas confissões com o Ministério Público do Peru e obriga, agora, a Odebrecht, a explicar claramente por que não revelou antes as mesmas informações.

Informalmente, representantes da empresa têm argumentado ter havido a preferência, na negociação do acordo, por relatar casos envolvendo autoridades de alta patente – no caso, ex-presidentes e seu entorno. Eles admitem a hipótese de não terem sido relacionados pagamentos que, ao longo do processo de colaboração, poderão vir a ser objeto de investigação interna.

Recentemente, a Odebrecht inclusive sugeriu às autoridades uma nova rodada de depoimentos no Brasil, com ex-executivos que poderão ajudar a esclarecer os novos casos.

Essa apuração faz parte do especial “Bribery Division” (Divisão de Propina), uma nova investigação liderada pelo ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos), que revela que a operação de compra de contratos da Odebrecht era ainda maior do que a empresa assumiu perante a Justiça e envolveu personalidades proeminentes e grandes projetos de obras públicas não mencionados nos processos criminais ou outros inquéritos oficiais até hoje.

(Participaram do projeto Bribery Division: Andersson Boscán, Mónica Velasquez, Alicia Ortega Hasbún, Ben Wieder Romina Mella Pardo, Mónica Almeida, Emilia Diaz-Struck, Dean Starkman, Tom Stites, Joe Hillhouse, Richard H.P. Sia, Fergus Shiel, Margot Williams, Delphine Reuter, Mary Triny Zea, Joseph Poliszuk, Milagros Salazar, Gustavo Gorriti, Ben Wieder, Kevin Hall, Amy Wilson-Chapman, Hamish Boland-Rudder, Fernando Rodrigues, Nathália Pase, Letícia Alves, Guilherme Amado e Thiago Herdy)

NOTA DA ODEBRECHT

Após a publicação da primeira reportagem da série Bribery Division, a empreiteira enviou a seguinte nota:

“Todos os documentos e testemunhos sobre fatos acontecidos no passado, inclusive a base completa de registros dos sistemas Drousys e My Web Day do extinto setor de Operações Estruturadas, estão há três anos sob posse do Ministério Público Federal brasileiro (MPF) e Departamento de Justiça americano (DOJ). Ou seja, as informações publicadas já foram entregues às autoridades e estão disponíveis para os países que celebraram acordos de leniência com a Odebrecht e concluíram o processo de homologação. Este é um procedimento da justiça adotado internacionalmente. Estabelece a confidencialidade da informação com o objetivo de resguardar os avanços das investigações, respeitando a soberania de cada nação e buscando a eficácia das ações legais contra os acusados.

É equivocado afirmar que houve omissão por parte da empresa ou que todos os projetos mencionados nesses documentos têm vinculação com atos de corrupção. É importante ressaltar também que há uma parte relevante de informação disponibilizada pela empresa à Justiça, em diversos países, e que ainda não veio a público, em razão da confidencialidade dos processos.

A Odebrecht espera ser reconhecida não só pela consistência de sua colaboração, que acontece de forma irrestrita e continuada, mas também pela transformação que já empreendeu em sua forma de atuação, combinando sua reconhecida capacidade de engenharia com atitudes éticas, íntegras e transparentes.”

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da Redação

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