Foto de pai e filha afogados na fronteira dos EUA vira símbolo do drama de imigrantes centro-americanos

Azam Ahmed e Kirk Semple, do New York Times, O Globo

CIDADE DO MÉXICO — Pai e filha deitados com a barriga para baixo, rostos mergulhados na água turva do Rio GrandeRio Bravo para os mexicanos —, que separa o México dos Estados Unidos . A cabeça da menina enfiada na blusa do pai, seu bracinho pendurado no pescoço do homem.

O retrato de desespero foi capturado na segunda-feira pela jornalistaJulia Le Duc , horas depois de Óscar Alberto Martínez Ramírez ter se afogado com Valéria, sua filha de 1 ano e 11 meses, quando tentavam chegar aos Estados Unidos.

A imagem é um resumo doloroso da perigosa jornada que os imigrantes enfrentam em busca do "sonho americano" e das trágicas consequências que costumam passar despercebidas no debate acirrado que ocorre atualmente nos Estados Unidos sobre a questão fronteiriça.

Ela remete a outras fotos chocantes que chamaram a atenção para os horrores de guerras e para o sofrimento de refugiados e imigrantes — histórias pessoais que são geralmente engolidas pelos eventos maiores. Como a foto de uma criança síria retirada dos destroços em Alepo, na Síria, a de um bebê malnutrido observado por um urubu, no Sudão, e a do menino sírio Aylan Kurdi, que morreu afogado em uma praia da Grécia, o retrato de Martínez e Valéria é suficientemente forte para impactar a opinião pública.

A jovem família de El Salvador — Martínez, de 25 anos, Valéria e sua mãe, Tania Vanessa Ávalos, de 21 — ficou por dois meses em um abrigo mexicano na cidade de Tapachula, antes de tentar cruzar o Rio Grande, onde aconteceu a tragédia.

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Os três começaram a atravessar o Rio Bravo no meio da tarde de sábado. Segundo Ávalos, Martínez nadava com Valéria nas costas, presa em sua camisa, enquanto ela ia atrás, carregada por um amigo. Em entrevista ao jornal La Jornada, Ávalos contou que o marido conseguiu chegar à outra margem, deixou a menina e voltou para ajudá-la.

Nesse momento, a bebê voltou a entrar na água, aparentemente por medo de ficar sozinha. Oscar tentou resgatá-la, mas ambos foram arrastados pela corrente. Na segunda-feira, os corpos foram recuperados pelas autoridades mexicanas, algumas centenas de metros à frente, na mesma posição.

— É muito triste que isso tenha acontecido — disse o presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador, durante entrevista coletiva nesta terça-feira, afirmando, que conforme o número de imigrantes rejeitados pelos americanos aumenta, "há pessoas que perdem suas vidas no deserto ou cruzando o Rio Bravo".

Enquanto a foto viralizava nas redes sociais nesta terça-feira, democratas na Câmara dos Estados Unidos davam passos para aprovar US$ 4,5 bilhões em ajuda humanitária para os imigrantes na fronteira com o México.

O deputado Joaquin Castro, líder do grupo latino no Legislativo, estava emocionado enquanto falava sobre a fotografia em Washington. Ele disse esperar que a imagem sensibilize os parlamentares e a sociedade americana para o drama dos imigrantes.

— É muito difícil ver essa foto — disse Castro. — É a nossa versão da fotografia daquele menino sírio de 3 anos, morto na praia. É isso.

Política linha-dura faz outras vítimas

Outros incidentes nas últimas semanas trouxeram novamente à tona os perigos da fronteira. No domingo, dois bebês, uma criança e uma mulher foram encontrados mortos no Vale do Rio Grande, vítimas do calor. Há cerca de dois meses, três crianças e um adulto hondurenhos morreram afogados quando sua jangada virou.

Mesmo antes de Trump, dissuadir possíveis imigrantes de tentar a travessia tem sido uma estratégia do governo americano para conter as ondas de imigração.

Desde quando era candidato, Trump tem exercido grande pressão para que o México reforce o combate à imigração, já que grande parte dos imigrantes são centro-americanos e cruzam o território mexicano em direção aos EUA. Washington tem procurado criminalizar aqueles que entram de maneira irregular nos Estados Unidos, separando pais e filhos e diminuindo as solicitações de asilo.

Os esforços mexicanos de combate à imigração aumentaram nas últimas semanas, quando López Obrador concordou em endurecer suas políticas. O acordo migratório é uma consequência das ameaças de Trump de impor tarifas a todos os produtos importados do México caso o número de imigrantes que cruzam irregularmente a fronteira não fosse reduzido a zero.

Na segunda-feira, o governo mexicano enviou mais de 20 mil homens para suas fronteiras Sul e Norte — uma tentativa de impedir a passagem de imigrantes não autorizados para os Estados Unidos, disseram autoridades. Entretanto, especialistas em direitos humanos, defensores dos imigrantes e analistas de segurança alertaram que a mobilização pode causar uma busca por rotas mais perigosas para chegar aos Estados Unidos.

Mesmo com a política linha-dura, centenas de milhares de imigrantes continuam saindo da América Central e do resto do mundo em direção aos EUA. Alguns fogem de quadrilhas que destroem seus vilarejos e matam sem piedade. Outros estão à procura de melhores condições econômicas.

Este foi o caso de Martínez e sua mulher, que deixaram El Salvador no início de abril para começar de novo nos Estados Unidos, segundo Jorge Beltran, repórter do El Diario de Hoy em El Salvador, que entrevistou alguns dos parentes do casal.

Membros da família fizeram um apelo ao público na terça-feira, pedindo dinheiro para ajudar a repatriar os corpos de Martínez e Valéria. O custo estimado é de cerca de US$ 8 mil — valor alto demais para eles. Horas depois, o governo salvadorenho concordou em cobrir os custos.

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da Redação

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