Governo frustra parlamentares ao ignorar 'banco de talentos' e dificulta articulação política

Por Natália Portinari e Bruno Góes do O Globo

RIO — A nova estrutura anunciada no fim da semana passada peloPlanalto para melhorar as relações com o Congresso assume com um desafio: o novo ministro da Secretaria de Governo, o general Luiz Eduardo Ramos , que assumirá a articulação política no lugar do ministro da Casa Civil,Onyx Lorenzoni , tem em mãos indicações feitas por parlamentares para cargos nos estados que até agora não saíram do papel.

Parlamentares dizem que há um processo rigoroso de seleção e que as nomeações seguem os critérios do decreto do “banco de talentos”, que exige ficha limpa e experiência.

Levantamento feito pelo GLOBO mostra que ao menos 75 nomes foram indicados à Casa Civil desde março, quando o próprio governo sinalizou que gostaria de receber a sugestão de nomes técnicos para preencher cargos. Todas as ideias foram ignoradas pelo Planalto até o momento.

Há indicações de parlamentares de cargos nos estados em órgãos como Ibama, Funasa, Incra, Codevasf, Secretaria de Patrimônio Urbano e outros braços dos ministérios.

A demora em efetivar as demandas acertadas com parlamentares são apontadas por congressistas como um dos motivos que dificultam o clima para o Planalto entre deputados e senadores. O governo vem sofrendo derrotas sucessivas e nesta semana pode ver ser rejeitado pela Câmara o decreto das armas, uma das bandeiras de campanha do presidente Jair Bolsonaro.

A responsável por coletar as indicações é Joice Hasselmann (PSL-SP), líder do governo no Congresso. Ela reclamaa interlocutores que o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, não conseguia fazer valer o poder de sua caneta e que um dos problemas é o fato de outros ministros não aceitarem as indicações. A deputada também ressalta que há um processo rigoroso de seleção e que as nomeações seguem os critérios do decreto do “banco de talentos”, que exige ficha limpa e experiência.

Para não negociar com a cúpula dos partidos, a Casa Civil havia optado por pedir aos coordenadores de bancadas estaduais no Congresso para compilar os nomes em seus estados. O ex-coordenador do Maranhão, Hildo Rocha (MDB), conta que enviou uma lista de doze nomes há mais de um mês. Nenhum foi nomeado, sem que houvesse uma justificativa para o parlamentar.

— Não teve nada. Que eu saiba, do Maranhão, nenhum foi nomeado. Não rolou nada, zero. O governo precisa parar de prometer e não entregar.

Os coordenadores das bancadas de Rondônia e Espírito Santo fazem coro às reclamações — suas indicações também não andaram no governo federal.

— Está tudo parado, não foi nomeado ninguém — diz Lucio Mosquini (MDB), coordenador da bancada de Rondônia — Está demorando muito e os parlamentares acabam desistindo, porque dá mais problema do que resultado. Ninguém está atrás de carguinho. O governo vai perdendo esse compromisso de alinhamento quando não cumpre a parte dele.

— Isso tem incomodado, porque eu virei interlocutor do governo e gerei uma expectativa de algo que foi discutido em março e não foi para frente — diz Da Vitória (Cidadania), coordenador do Espírito Santo. — Nunca vi em lugar nenhum um tempo de avaliação como esse. Compromisso é algo sério, só devemos fazer se for cumprir.

Coordenador da bancada do Rio de Janeiro, o deputado Hugo Leal (PSD) diz que foi apresentado a uma planilha de cargos regionais pelo governo e fez encaminhamentos de pedidos de colegas.

— Eu fazia o encaminhamento. A informação que eu tenho de pessoas mais próximas ao governo é que não saiu nada. Mas também não é minha função monitorar. Passei para pessoas mais próximas ao governo.

Aliados atendidos

Há nomeações saindo a conta-gotas em alguns estados, mas de nomes ligados ao PSL, partido de Bolsonaro, ou a figuras do próprio governo. Maura Jorge, candidata do partido ao governo do Maranhão nas últimas eleições, foi nomeada na última quarta-feira para a superintendência da Funasa (Fundação Nacional de Saúde) no estado. Na lista encaminhada pelo deputado Hildo Rocha, por exemplo, este era um dos cargos pleiteados.

No Rio Grande do Sul, o ministro da Casa Civil indicou um aliado, André Cecchini, para a superintendência do Grupo Hospitalar Conceição (GHC) em abril. O grupo controla um orçamento de R$ 1,5 bilhão e é um dos cargos mais cobiçados do estado. Também foram nomeados um diretor ligado ao DEM, Claudio Oliveira, e outro ligado ao MDB, Francisco Paz. O último, segundo deputados gaúchos, seria um indicado do ministro da Cidadania, Osmar Terra.

Na Bahia, o vice-líder do governo, José Rocha (PL), indicou Maria Quitéria (Avante) para a Gerência de Assuntos Estratégicos da Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba). Ligada à esquerda, foi exonerada por Onyx logo após a nomeação, em março. José Rocha, porém, contornou a situação, e Quitéria continua nomeada no cargo até o momento.

Ajude-nos a continuar nosso trabalho independente. Você jamais será livre, sem uma imprensa livre. Contribua.

da Redação

Comentários