‘O crime dentro do estado sempre contra-ataca’, diz especialista em crime organizado

Por André de Souza do O Globo

BRASÍLIA — Autor de uma extensa pesquisa sobre o crime organizado, o professor Edgardo Buscaglia , da Columbia Law School, em Nova York, avalia que o Brasil vem fazendo um bom trabalho no combate às redes criminosas, inclusive àquelas que se infiltraram no Estado, mas faz um alerta: sempre que há um movimento nesse sentido, que permite entre outras coisas a prisão de altos políticos e empresários, pode ocorrer o que ele chama de “contrarreforma mafiosa”.

Há risco de o Brasil se tornar um dia o que a Colômbia já foi?

Não, não! Nós tivemos acesso a arquivos do Brasil, examinamos a investigação das polícias, informações da inteligência, o trabalho do Ministério Público e dos juízes. Em 2004, o Brasil cumpria apenas 13 das 45 instituições necessárias para combater o crime organizado, dentro ou fora do âmbito do Estado. Agora cumpre todas as 45, em especial no combate à corrupção política. Têm sido acusados não apenas políticos da esquerda, mas de todas as ideologias no Congresso.

Então o Brasil melhorou muito em termos de efetividade no combate às redes criminosas. Em 2002, era um dos piores. Nós cobrimos 118 países, e era o número 73. Agora está entre os 22 melhores. O ponto é que isso não é reconhecido publicamente no Brasil.

Por quê?

Quando nos empenhamos mais contra a corrupção e o crime organizado, a percepção é de que há mais corrupção, mas é um paradoxo. É o oposto. Em países como o México, em que o caso Odebrecht foi empurrado para debaixo do tapete, as pessoas não veem a corrupção porque não foi investigada.

Por que o Brasil está melhor?

A independência judicial e a autonomia operativa do Ministério Público aumentaram. É um grande desenvolvimento institucional que levou muitos anos, não foi de um dia para o outro. Houve vários líderes neste país, Dilma Rousseff, Lula, (Fernando Henrique) Cardoso, que permitiram esse desenvolvimento institucional.

O Brasil vai continuar andando na direção correta ou pode retroceder?

Tudo depende. Sempre que você começa a combater o crime organizado dentro do Estado, ele vai contra-atacar. Geralmente com golpe de Estado. Não com tanques, mas dentro do Parlamento. Começam a fazer impeachments. Eles não ficam parados e olham. Eles se reagrupam e começam a “contrarreforma mafiosa”. Não se pode prever em política o que vai acontecer no Brasil. Não foram acusados apenas um ou dois políticos. Há dezenas, de todos os partidos. Eles vão reagir.

Isso pode acontecer no Brasil?

A “contrarreforma mafiosa” é uma coisa difícil de prever. Eu espero que ela fracasse. O objetivo desses caras não é apenas mostrar fitas de (Sergio) Moro, mas orquestrar um golpe de Estado disfarçado de impeachment ou algo do tipo. Eles querem voltar ao passado.

Moro errou ao dar conselhos a procuradores?

Vamos descobrir. O Brasil tem procedimentos para determinar isso, mas o ponto é que há muitos casos como a Lava-Jato no Brasil que foram investigados, sentenciados, com apelação, e o devido processo foi respeitado. O que aconteceu no Brasil nos últimos cinco anos é ficção científica para países como Argentina e México. Cidadãos (desses países) sonham em ver juízes e procuradores fazendo o que fizeram aqui.

Ajude-nos a continuar nosso trabalho independente. Você jamais será livre, sem uma imprensa livre. Contribua.

da Redação

Comentários