A maldição de uma dinastia

Por João Batista Jr. da Revista Veja

Uma sina parece perseguir o senador Fernando Collor de Mello, 69 anos, e sua família. Passam os anos e, tanto na esfera pública como na vida privada, as histórias se repetem. Na carreira política, escândalos. Em dezembro de 1992, como o Brasil inteiro sabe, ele renunciou ao mandato de presidente da República para escapar de um processo de impeachment, a que fora arrastado depois de uma saraivada de denúncias de mau uso do dinheiro público deflagradas pela entrevista do irmão Pedro Collor (1952-1994) a VEJA em maio daquele ano.

Pois recentemente Collor caiu na rede da Lava-­Jato, acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Responde atualmente a seis inquéritos.

No âmbito familiar, um roteiro de transtornos e desavenças, com um sólido histórico de traições. No passado, brigas com os irmãos Pedro e Leopoldo, assim como crises no casamento com Rosane. Agora uma nova e ruidosa confusão.

O “Rei Sol”, como o chamam na intimidade, é acusado por cinco sobrinhos — dois filhos do irmão Pedro e três de Leopoldo (1941-2013) — de apropriar-se do patrimônio da família, pendurado na Organização Arnon de Mello, sem promover uma divisão correta. Filhos de Pedro e Thereza Collor, Fernando (nome dado em homenagem ao tio que depois seria brigado de morte com o pai) e Victor têm juntos 15% do grupo.

Os dois nunca viram um centavo do lucro das empresas nem receberam balanço contábil desde a morte de Pedro. Leopoldo teve três filhos, mas eles não podem exigir parte do patrimônio porque ele vendeu sua participação acionária ainda em vida.

ALEGRIA FORJADA – Fernando (1), Ledinha (2), Dona Leda (3), Pedro (4), Leopoldo (5) e Ana Luísa (6): os irmãos cresceram em um lar no qual a competição era estimulada pelos próprios pais, o que culminou em adultos brigados entre s (//.)

Representantes da clássica oligarquia nordestina, os Collor de Mello usufruem a rara combinação de dinheiro e poder. Seus negócios englobam bens como a TV Gazeta, afiliada da Globo, duas rádios, um jornal, uma gráfica e um edifício de treze andares em Maceió. Estima-se que o conjunto chegue a 250 milhões de reais. E essa é apenas a parte mais visível do império. Há outros bens, de caráter reluzente, que também têm sido alvo de disputa.

O inventário da matriarca, Dona Leda (1916-1995), é descrito em 162 páginas, quatro delas dedicadas a joias e pedras preciosas, como uma pulseira de 18 gramas de ouro e 21 esmeraldas e um colar de ouro de 18 quilates de 102 gramas com onze fios de pérolas e brilhantes, além de vasos chineses, lustres de cristal Baccarat e obras de arte, como uma tela a óleo com a imagem da própria Leda pintada por Candido Portinari.

Embora as peças façam parte do testamento da matriarca, os herdeiros não sabem onde elas foram parar. Na intimidade, apontam o dedo para Fernando Collor e não se cansam de atrelar o sumiço ao comportamento do ex-­presidente quando se trata de misturar o que não poderia ser misturado — o que é dele e o que é dos outros.

Depois de ser escorraçado da política no pós-impeachment, Collor voltou-­se para os negócios da família. Em meados dos anos 90, ele assumiu o controle do grupo, então em boa saúde financeira. Hoje, a Organização Arnon de Mello soma mais de 200 milhões de reais em passivos.

De acordo com a Procuradoria-Geral da República, o ex-caçador de marajás usou as empresas da família para lavar 50 milhões de reais, como na compra de um Porsche Panamera por 550 000 reais em nome da TV Gazeta. No mês passado, a PGR pediu ao STF a condenação do político a 22 anos e oito meses de prisão por lavagem de dinheiro e corrupção passiva.

As denúncias de irregularidades na distribuição de dinheiro entre os parentes e as acusações de lavagem de dinheiro, ambas ainda sob investigação, são o fio que puxa uma história de relações muito confusas, que não raro terminaram em rompimento. É triste, para dizer o mínimo, a saga da dinastia Collor. O casal Arnon de Mello e Leda Collor formou um clã de poder político e financeiro de longa data. Como se diz hoje em dia, eles não tinham nada de novos-ricos. O pai dela foi ministro do Trabalho de Getúlio Vargas, nos anos 30, antes de voltar-se contra a administração e ser exilado. Arnon foi senador e governador de Alagoas.

O dinheiro e o tumulto eram equivalentes dentro do lar. O clima de competição ganhava estímulo dentro de casa. “Arnon, de forma descarada, demonstrava mais amor pelo tio Fernando; via nele a vocação política”, diz um parente. Dona Leda também distribuía carinho de forma desigual. Leopoldo era o favorito na infância, mas na vida adulta ela transferiu o posto de queridinho para Pedro — quando este alavancou as empresas da família, no começo dos anos 90. Feliz, ela tinha feito um testamento em que daria 50% de seu patrimônio a Pedro.

O documento foi desfeito depois que o filho fez as denúncias a VEJA. Dona Leda, então, decidiu testar metade da fortuna às duas filhas mulheres, Ana Luísa, morta em 2013, e Ledinha (ambas sem herdeiros).

ORIGEM DUVIDOSA – Porsche em nome da TV Gazeta: a PGR diz que Collor usou empresa da família para lavar dinheiro (Cristiano Mariz/VEJA)

Em 1998, outro abalo familiar. Leopoldo emprestou dinheiro ao irmão ex­-presidente para a compra do Dossiê Cayman, um calhamaço de documentos falsos para prejudicar Fernando Henrique Cardoso. A mutreta foi descoberta, FHC conseguiu reeleger-se e Collor jamais quitou a dívida. Foi o ponto-­final em uma relação de raiva, inveja e competição. Com recursos escas­sos, os filhos de Leopoldo começaram a andar de transporte público e a comer ovo como “mistura” no almoço e no jantar. As contas de luz eram pagas com atraso frequentemente.

Seu padrão de vida ruiu. Por anos, Leopoldo trabalhou como diretor comercial da Rede Globo no Brasil, frequentando festas chiques regadas a champanhe. Morreu, em 2013, de câncer na garganta, em São Paulo. Não foi feito inventário por uma razão simples: não havia nada em seu nome. Collor impediu o jornal da família de noticiar a morte do irmão.

FIM INFELIZ – Leopoldo, morto em 2013: calote do irmão e contas atrasadas (José Nascimento/Folhapress)

Fernando Collor tem cinco filhos, fruto de três relacionamentos. Arnon e Joaquim, os dois mais velhos, do casamento com a empresária Lilibeth Monteiro de Carvalho, quase não falam com o pai. Dos cinco filhos de Arnon e Dona Leda, Fernando e Ledinha são os únicos vivos. Ambos estão rompidos. Apesar do atávico desconforto familiar, os primos buscam reinventar essa narrativa pacificamente, tentando um caminho de futuro.

Os filhos mais velhos de Collor são amigos dos herdeiros de Pedro e Leopoldo. “Temos de quebrar a maldição deixada por nossos avós”, diz um integrante. Procurado por VEJA, Collor enviou a seguinte nota, por meio de seus advogados, ao refutar as acusações de que esconde o patrimônio familiar: “A defesa não vai responder a nenhuma questão relativa às empresas do ex-­presidente; isso faz parte da relação entre ele e os sócios, e não faz sentido discutir publicamente questões das empresas”. As desculpas e a postura arrogante também se repetem.

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da Redação

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