Lúcio Mauro que morou no Recife inaugurou a TV no Nordeste na década de 60

Com informações do portal O Globo.

RIO — O ator e comediante Lúcio Mauro morreu na madrugada deste domingo, aos 92 anos. Ele estava internado há dois meses na Clínica São Vicente, em Botafogo, devido a problemas respiratórios. O corpo do ator será velado nesta segunda-feira, no Teatro Municipal, das 9h às 14h.

Lúcio Mauro ao lado de Chico Anysio na Escolinha do Professor Raimundo .

Seu filho, o também ator Lucio Mauro Filho o homenageou num texto publicado no Facebook: "Papai foi um pioneiro, saiu do teatro de estudante lá no Pará, foi pro Recife, fez rádio, inaugurou a televisão no Nordeste e de lá, veio para o Rio de Janeiro pra se tornar um dos maiores artistas deste país".

Lúcio Mauro e o seu filho, também ator e comediante Lúcio Mauro Filho.

As palavras de Lúcio Mauro Filho são precisas. Nascido em Belém do Pará, em 1927, Lúcio Mauro contava que desde criança tinha o sonho de entrar no Teatro da Paz, a monumental sala de sua cidade natal. Aos 11 anos, conseguiu pela primeira vez, aproveitando a distração dos porteiros.— Encantava-me com as peças, o palco, as luzes, os artistas — disse o artista ao GLOBO em 2008. — Mas, à época, ter artista na família era uma vergonha. Meu pai não gostava da ideia, mas minha mãe disse : "Lúcio Mauro não tem só pai, tem mãe também. Temos que escutá-lo.

É isso que você quer ser?" Eu tinha 17 anos, disse : "É." Ela falou ao Mário : "Espere um instantinho." Pegou uma maleta de couro, botou duas calças, quatro camisas, quatro cuecas, duas meias e me disse : "Vá."Lúcio Mauro começou a carreira no teatro estudantil. Com pouco mais de 20 anos, entrou para a companhia de teatro de Mário Salaberry — e ao lado do mestre sofreu um acidente que marcou sua vida e sua carreira. Os dois iam de carro de Belém para o Rio quando, próximo a Petrolina, o carro capotou:— Ele morreu na hora, nos meus braços. Meu rosto ficou uma posta de sangue. Os vidros entraram e cortaram tudo.

Fui costurado com agulha que se costura saco, sem anestesia. Não tinha cirurgião plástico naquela época. Vi que fiquei completamente deformado, mas depois me acostumei, e o público também — contou o ator em entrevista ao GLOBO, referindo-se às cicatrizes de seu rosto que se tornaram uma característica sua. — As marcas começaram a fazer parte da minha personalidade, deram mais força a meu rosto.

Ele é expressivo mesmo com os defeitos. Senti que minhas dificuldades para conseguir meu intento de ser ator, de ser galã, tinham aumentado com o acidente, mas Deus foi generoso, e seis meses depois já estava trabalhando. E eu também pensava: "Em cara de comediante não se deve mexer".

Passado o trauma, o ator se juntou à companhia de Barreto Júnior, na mesma época em que se casou com a atriz Arlete Salles. Sua estreia como humorista na televisão se deu em 1960, com a inauguração da TV Rádio Clube de Pernambuco, na qual participou do programa "Beco sem saída". Em 1963, ele se mudou para o Rio, onde trabalhou na TV Rio e na TV Tupi, em episódios do Grande Teatro Tupi. Em 1966, fez sua estreia na Globo, no humorístico "TV0-TV1".

Dois anos depois, criou e dirigiu o "Balança mas não cai", que marcou época na TV brasileira. Foi lá que apareceu pela primeira vez o personagem Fernandinho, marido da amorosa e pouquíssimo inteligente Ofélia (vivida então por Sonia Mamede e décadas depois reeditada no "Zorra total" por Claudia Rodrigues).

Claudia Rodrigues que contracenava com Lúcio Mauro no Zorra Total faz visita a ele no hospital.

No fim da década de 1970, em "Chico City" voltou a ganhar um personagem que se tornaria popular e o acompanharia por anos: Da Júlia, diretor do canastrão Alberto Roberto (vivido por Chico Anysio) no final da década. Novamente ao lado de Chico, viveu Aldemar Vigário, o aluno puxa-saco da "Escolinha do Professor Raimundo". No papel, travava batalhas verbais com Chico, amigo de longa data, provocando-o com fatos da infância e juventude do humorista — muitas vezes informado por testemunhas:

— Recebi uma carta de um padre do Ceará contando que a primeira vez que Chico fez sexo com uma prostituta foi atrás da igreja. Eu falava essas coisas, e ele ficava louco, não imaginava como eu sabia — contou o ator em 2008.

Velório será no Teatro Municipal

Nos programas humorísticos ou em outros como "Malhação", "Você decide", a série "Dona Flor e seu s Dois Maridos" e novelas como "Pecado capital", "Paraíso tropical" e "A favorita", Lúcio Mauro seguiu atuante. Aos 80 anos, estreou a peça "Lucio 80-30", ao lado de seus filhos. Na época, brincou:

— Pensei que ia morrer com 80, mas Deus me disse: "Vou dar mais uns anos para você fazer essa peça. Se ficar bom, a gente espicha. Se não, te mato".

No mesmo período, o ator se destacou no filme "Feliz Natal", estreia de Selton Mello como diretor. Sua filmografia inclui obras como "Terra sem Deus" (1963), de José Carlos Burle; "Redentor" (2004), de Claudio Torres; e "Cleópatra" (2008), de Júlio Bressane.

Em 2012, o ator foi internado após fraturar o fêmur. Em 2016, sofreu um derrame. Desde então vinha tendo cuidados intensivos em casa.

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da Redação

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