Movimento Terra Livre reúne milhares de indígenas na Esplanada sob forte vigilância da polícia

Da Redação em Brasília com informações de Karla Gamba, do jornal O Globo

Criticado pelo presidente Jair Bolsonaro, o acampamento do movimento Terra Livre, maior encontro de povos indígenas brasileiros, começou a ser montado nesta quarta (24), em Brasília, com restrições: a Polícia Militar do Distrito Federal impediu que o movimento se instalasse no gramado próximo ao Congresso Nacional.Após conversas e negociações entre a PMDF e lideranças dos acampados, os indígenas se deslocaram para uma outra área bem próxima da Esplanada, porém mais distante das sedes dos Três Poderes.

Organizado pela Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), o acampamento deve reunir 4 mil participantes e ocorre em um momento de tensão.

Os indígenas criticam duramente diversas medidas tomadas por Bolsonaro e afirmam que hoje precisam lutar não por avanços, mas para evitar retrocessos.

— Desde a campanha eleitoral, ele já mostrou que seria um governo anti-indígena. Então a gente tem feito enfrentamento no sentido de garantir os direitos conquistados, embora muitos retrocessos já estejam acontecendo — afirmou Eloy Terena, assessor jurídico da Apib.

Uma das principais reivindicações do movimento é o retorno do processo de demarcação de terras indígenas para a Funai (Fundação Nacional do Índio).

A identificação e demarcação era uma das principais atividades executadas pela fundação, mas, em um dos seus primeiros atos como presidente, Bolsonaro retirou essa atribuição do órgão indigenista e a transferiu para o Ministério da Agricultura.

O movimento também reivindica que a Funai permaneça vinculada ao Ministério da Justiça e que o Conselho Nacional de Política Indigenista (órgão colegiado que reúne diversas entidades representativas da sociedade civil e do governo) não seja extinto.

A preocupação dos indígenas com o impacto das medidas do governo mobilizou até mesmo caciques mais antigos e tradicionais, que não costumam se deslocar até Brasília para participar do encontro.

— Muitas lideranças, especialmente as mais tradicionais, fizeram questão de participar neste ano, por causa do contexto atual. O governo tem implementado muitas medidas que afetam os direitos dos povos indígenas, então os caciques mais antigos fizeram questão de vir, justamente para demandar isso — explica Terena.

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Falta de diálogo

Outra crítica dos indígenas é sobre a falta de diálogo do governo com as lideranças legitimadas pelo movimento.

Segundo o representante da Apib, o acampamento pretende mostrar a força da articulação e sinalizar quem são as lideranças com quem o governo deveria dialogar.

— Nós temos observado muito ele (Bolsonaro) falar que tem colocado indígenas nos cargos estratégicos, mas, na maioria das vezes, são indígenas totalmente desconectados com a realidade, que não passam por um processo de legitimação e que não tem nenhum tipo de diálogo com as suas comunidades de origem.

Terena afirma que o acampamento reafirma a legitimidade de suas lideranças, integrada por representantes de povos de várias regiões, algumas de difícil acesso.

Entre a programação do 15º Acampamento Terra Livre está a divulgação de um relatório, sistematizado pela Apib, que trará a relação de empresas que realizam atividades comerciais em áreas de conflitos de terras indígenas. A intenção da Apib é propor um boicote a essas empresas. Os dados do relatório também serão apresentados posteriormente fora do país, para o Parlamento Europeu.

da Redação

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