Uma lágrima para seu Julio Crucho e o documentário que eu nunca mais vou fazer

Por Ricardo Antunes

Em julho de 2017 fui almoçar com alguns amigos no Restaurante Dom Pedro que abrigava a maioria dos jornalistas do Diário e do JC quando as edições eram fechadas. Nascido no Norte de Portugal, o simpático Júlio Crucho, recebia a todos. Advogados, jornalistas, políticos, empresários, artistas e intelectuais passavam no seu restaurante que se tornou um dos pontos da boêmia da cidade.O escritor Mauro Mota, por exemplo, tinha cadeira cativa.

Era lá que, além de um bom bacalhau, se podia beber bem e falar das alegrias e dores dessa nossa vida. Saber dos conchavos políticos e das notícias que não podiam ser publicadas,

Nesse dia fui conversar com ele e sobre a possibilidade de fazermos um pequeno documentário sobre coisas ainda não ditas do que se passou dentro daquele espaço tão pequeno mas tão aconchegante. O mesmo viraria um livro também. Ele topou na hora.

O restaurante já não estava lotado como antigamente já que o centro havia perdido seu comércio, os dois jornais e vários escritórios de advogacia.. Mas resistia como uma ilha guardando em suas paredes fotos e lembranças de nossa história. "O que estão fazendo com a história do Recife? “Os bairros de Santo Antônio e São José precisam ser uma prioridade. Não adianta só construir shopping center. Temos que valorizar nossa história", reclamou ele

Os 80 lugares servem à clientela fiel do Dom Pedro - Foto: João Velozo

Eu passava no Dom Pedro quando trabalha no velho Diário na década 90. Mas o auge do espaço, inaugurado em 1960, foi nas décadas de 80 e 90. No documentário,eu iria ouvir as histórias e também gravar com os fregueses, como Aldo Paes Barreto, Talis Andrade, Ivanildo Sampaio, Carlos Garcia, Joezil Barros,Evaldo Costa. Marisa Gibson, José Adalberto Ribeiro, Zadock, Sergio Augusto e muita gente boa.

Só tinha craque. Depois do fechamento do Bar Savoy é que a clientela havia aumentado e escolhido o Dom Pedro como reduto "oficial" da noite da cidade.Nem a degradação do centro acabou o local apreciado também por muitos turistas.

Somente hoje soube de sua partida, ontem, aos 84 anos. Além da perda, com seu Júlio Crucho se vai boas histórias de alegrias, brigas, discussões e apostas da velha boêmia do velho Recife.

Fica a lição

Faça o que você acha interessante hoje. O amanhã talvez não exista nunca mais.

Me desculpe, seu Júlio.

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da Redação

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