Opinião: A mídia, as redes e os massacres

Por Cora Rónai, O Globo

A semana passada foi uma semana de reflexão para quem trabalha com comunicação. Mal soubemos do massacre na escola de Suzano, e as redes já explodiam com as notícias da chacina na Nova Zelândia. Como jornalista -- e como mãe, e avó, e cidadã -- me preocupo, há tempos, com o papel do efeito multiplicador da mídia em tragédias como a de Suzano.

Se evitamos noticiar suicídios, para que potenciais suicidas não se sintam estimulados, será que não deveríamos tratar com mais cuidado as notícias a respeito desses massacres, considerando que a maior parte é cometida por suicidas? Não há resposta simples para isso, entre outras coisas porque é impossível chegar a um consenso entre tantas fontes de informação ao redor do mundo.

Em tese, a sociedade tem o direito de saber quem a fere; mas esse direito facilmente se transforma em curiosidade mórbida diante da quantidade de informações que o noticiário traz, ampliando o seu alcance. Quanto mais notícias mais clicks, quanto mais clicks mais notícias; o ciclo se autoalimenta, e não passa despercebido de cabeças doentes que buscam a fama, ainda que póstuma. Ninguém quer ficar de fora, nem veículos nem leitores.

Pessoalmente, concordo com especialistas que acham que assassinos como os de Suzano ou de Christchurch, que matam a esmo para entrar "para a História", não deveriam sequer ser nomeados. Fotos pixelizadas e nomes em iniciais, A.B.C., se tanto. Nada de matérias com familiares ou amigos; foco nas vítimas, apenas.

Mas como o ataque às mesquitas demonstrou, até essa discussão já é de certa forma antiga. Hoje esses assassinos já não precisam da imprensa para ficar conhecidos: bastam uma Go Pro e uma live no Facebook. Curiosamente, aqui também os problemas e o destino da mídia tradicional se cruzam com as redes sociais, e nos trazem uma questão a mais: podemos nos dar ao luxo, como sociedade, de receber alguns tipos de informação indiscriminadamente? Podemos abrir mão da moderação e consumir a realidade em estado bruto?

Facebook e YouTube reagiram com lentidão imperdoável à viralização dos vídeos do assassino da Nova Zelândia. A live durou 17 minutos: isso é uma eternidade. Depois se propagou pela rede, e horas -- dias -- depois ainda podia ser encontrada, a tal ponto que, ainda ontem, provedores de internet da Nova Zelândia estavam, por conta própria, bloqueando os IPs de sites que ainda mantinham o vídeo no ar.

Tanto Facebook quanto YouTube alegam que agiram com a rapidez possível. Facebook diz que tirou do ar mais de 1,5 milhão de posts. A questão é que vai ficando cada vez mais difícil conviver com a "rapidez possível" das mega plataformas, que cresceram para além de qualquer possibilidade de controle. Nada no mundo jamais teve esse alcance; nada no mundo jamais poderia ter chegado a ter esse alcance.

Já é evidente, há tempos, que nem as próprias redes conseguem mais lidar com o conteúdo que ajudam a disseminar. E agora? Qual é a solução? Tanto Google (dona do YouTube) quanto Facebook dizem que ferramentas de inteligência artificial vão resolver isso em breve. Até lá, só nos resta desfiar perguntas sem resposta.

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da Redação

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