Erro de Haddad abala tática petista de culpar 'fake news' por desvantagem

Por Pedro Dias Leite do Globo

Ao repetir sem checar uma acusação grave, e que se provou falsa, Fernando Haddad cometeu um erro que abala sua principal estratégia na reta final do segundo turno. Nos últimos dias, o candidato do PT à Presidência vinha creditando a vantagem de Jair Bolsonaro a uma indústria maciça de "fake news".

A distância de 20 milhões de votos do capitão reformado seria, única e exclusivamente, pelas mentiras espalhadas por seus partidários. Como insistir nisso depois de propagar, ele mesmo, uma notícia falsa?

Agora, toda vez que Haddad reclamar do massacre de notícias falsas contra sua campanha, partidários do adversário do PSL já têm pronta a resposta: quem espalha "fake news" é o petista, que acusou, injustamente, o general Hamilton Mourão de ser um torturador durante a ditadura militar .

O erro estratégico denota, também, o grau de pressão e de exaustão no quartel-general petista. A acusação a Mourão foi deliberada e repetida por Haddad na sabatina promovida pelos jornais O GLOBO, Extra, Valor Econômico e a Revista Época, com o objetivo de obter repercussão: "Deveria estar em todas as primeiras páginas amanhã", disse o candidato.

Mas bastou uma busca no Google, assim que a frase foi dita, para mostrar a inconsistência da afirmação. Mourão tinha 16 anos à época em que o cantor Geraldo Azevedo foi barbaramente torturado - e as sevícias a que foi submetido são verdades comprovadas, é bom destacar. Uma acusação dessa gravidade, feita por um político que luta contra as fake news, jamais poderia ter sido feita com leviandade.

Em pouco mais de uma hora, a máquina de checagem do jornalismo profissional entrou em ação, e o erro estava esclarecido: Mourão afirmou que ainda estava no colégio, e Geraldo Azevedo disse que se equivocou e pediu desculpas pelo seu erro.

O equívoco do cantor pode ter acontecido de boa fé, ao contrário das fake news clássicas, criadas para desinformar. Mas ao ter sua repercussão ampliada contribuiu ainda mais para quem aposta na confusão de informações.

A situação eleitoral de Haddad antes do episódio já era delicada. As pesquisas praticamente não se alteraram desde o começo do segundo turno, com larga vantagem para Bolsonaro. Sua principal e última aposta dos últimos dias, de creditar a desvantagem a uma tática suja de fake news do adversário, sofreu um enorme baque com o erro da manhã desta terça-feira.

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