"Boechat se foi.Quero dizer pra ele que discordo. Quero dizer pra ele que exijo que volte atrás", diz Reinaldo Azevedo

Por Reinaldo Azevedo.

Não sei como começar, como terminar, como seguir.Ricardo Boechat morreu num acidente de helicóptero. Com ele, piloto e copiloto.Eu tenho medo dessas geringonças. Talvez um dia tropece a bata cabeça e pronto. Estará feito. Boechat não tinha. Era o nosso amigo “vida loka”.

 

Parecia ter o dom da ubiquidade. Para tanto, não havia helicóptero, garupa de moto, táxi, bicicleta que o parassem.

Boechat migrou do jornalismo impresso, que nunca abandonou, para o rádio e para a televisão com uma destreza impressionante. Parecia ter nascido ali, com o microfone à frente, de olho nas câmeras. Era dono de uma eloquência rara.

Não há tempo em que alguém como ele não faça falta. Fará mais agora.

A gente se cruzou na semana passada no estacionamento da Band. Como de hábito, indo embora, com o paletó pendurado no ombro. “E aí, querido Reinaldo? Vamos marcar o nosso uísque? Pode ter cigarro!” Ficaria para esta semana, para a próxima talvez. Não deu tempo. Foi arrancado de sua família, de seus colegas, do jornalismo.

Por favor, não bebam. Não fumem.

O que fez em nossa profissão fica. Nada nem ninguém tiram.

Tínhamos divergências, sim. Não eram poucas. Chegamos a nos estranhar certa feita no ar, ele na BandNews; eu em outra rádio. Não gostou de algo que eu escrevera por ocasião da morte de Oscar Niemeyer. Bateu duro. Devolvi com igual dureza.

Quando, há pouco menos de dois anos, fui alvo de uma safadeza do Ministério Público Federal ou da Polícia Federal, com a colaboração de vagabundos disfarçados de jornalistas — jamais se saberá a autoria porque a “investigação” não chegou aos criminosos —, deixei a emissora em que trabalhava.

Boechat imediatamente se solidarizou e passou a defender a minha contratação pelo grupo Bandeirantes. Deixei o emprego anterior numa terça e conversei com a direção do grupo Bandeirantes numa sexta. Na segunda seguinte, estreava  “O É da Coisa” na BandNews FM.

Concordávamos em muita coisa. Discordávamos sobre outro tanto. Mas nunca! E “nunca” quer dizer “nunca”, Boecht foi intelectualmente desonesto ao tratar dessas diferenças.

Não era o tipo de maltrapilho moral que às vezes cai de paraquedas em nosso meio, preocupado apenas com a sua pequena reputação, para usar o microfone para atacar, de forma desleal, um colega da casa.

Nunca fez isso. Ao contrário: tinha a faculdade de dizer na cara o que pensava. E nos admirávamos também por isso.

O jornalismo opinativo é uma seara delicada e perigosa. Ter o privilégio de contar com um microfone para dizer “isso presta. isso não”. “isso está certo, isso não está”; “não se deve fazer desse modo, mas deste”…

Bem, minhas caras, meus caros, é preciso ter responsabilidade; é preciso ter a coragem, em tempos como os que vivemos, de não dar bola para o que vão dizer a seu respeito, pouco importando se falam bem ou se falam mal.

Na era da Internet, a opinião virou um território em que pistoleiros a serviço dos próprios interesses, ou de “causas” remuneradas, facilmente se confundem com quem tem uma leitura da realidade pautada pelo rigor técnico, pela informação.

Boechat era um mestre em seu ofício, não um caça-cliques, não um caça-likes, não um caça-polêmicas. O seu oposto são os falastrões que andam por aí, especializados em agredir “os de sempre”, a lista previamente elaborada de desafetos.

Certa feita, num jantar na casa de amigos, falamos largamente a respeito dessa miséria moral que atingia nosso meio.

Boechat se foi.

. Quero dizer a ele que nos deve retratação.

 

 

 

 

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